sábado, 11 de julho de 2026

Vivendo Viena em 3 dias - Dia 1

 Chegando em Viena

É possível chegar a Viena em voos diretos saindo do Brasil, embora a maioria das opções faça escala em cidades como Madrid, Paris, Frankfurt ou Lisboa.

Eu vim de trem partindo de Budapeste, numa viagem rápida e saindo de uma das cidades mais maneiras da Europa, o artigo aqui é sobre Viena mas não posso deixar de fazer propaganda de Budapeste. Até tentei fazer o trajeto de Ferry pelo Danúbio mas não estava disponível nessa época do ano. 

A proximidade das capitais pode indicar fazer um bate-volta, eu sou adepto de conhecer o movimento das cidades, sentir o clima  o ritmo sem o movimento artificial dos turistas então não indico, mas se não tiver tempo vale a pena fazer isso com Bratislava mas não com Budapeste.

A passagem de trem custa em média 20 euros na Regiojet, dura 2:40 e é bem confortável,  vai deixar você numa estação central muito bem organizada. Além da  Vienna Central Station (Wien Hauptbahnhof), existem outras grandes estações: Wien Mitte, Wien Westbahnhof, Wien Praterstern. Pelo número de grandes estações já dá pra perceber que é uma cidade imensa mas que dispõe de um bom sistema de transportes.

Como se locomover em Viena

O transporte público é bem organizado e conecta bem a cidade, o Tram é rápido, seguro e abrangente, os ônibus também e para as regiões mais centrais da cidade como Mariahilfer Strasse,o melhor jeito é caminhar bastante. 

O Rio Danúbio

O Danúbio é majestoso. Durante alguns quilômetros ele acompanha a viagem como se lembrasse que não estamos apenas mudando de cidade. Estamos atravessando parte da história da Europa. Poucos rios ligam tantas culturas, impérios e capitais como ele (ele passa por 3). Talvez por isso a chegada a Viena já comece antes da estação: ela começa pela janela do trem.

Cartão de turismo 

Já foi tempo que você chegava numa cidade com um caríssimo cartão de turismo mas resolvia toda a sua vida de transportes, entrada de museus e outros tantos descontos. Paris ainda é a melhor nesse aspecto, mas agora existem dezenas de opções de cartões com preços variados que dão entrada num museu mas restringem outros, ou seja um comércio que virou uma confusão e não facilita tanto a vida do turista que acaba tendo que comprar vários cartões diferentes numa viagem mais longa. 

Em Viena existe o Sissi Card Um passe que dá direito a visitar dois Palácios — Schönbrunn e Hofburg — e de quebra o Museu do Mobiliário Imperial.O preço é interessante: € 29,90 (uma economia de € 10 se comparado com o preço dos três ingressos avulsos; é como se o museu do mobiliário saísse de graça). O problema é que quase ninguém poderia ficar interessado em ir no Museu Imobiliário, se eu fui nele... esqueci! Mas o principal atrativo, sobretudo para quem vai na alta temporada, é poder furar fila: você compra online, imprime em casa e vai direto para o portão de entrada dos palácios, sem precisar passar pela bilheteria. É bom sempre consultar os preço na época da sua viagem em  Sisi Pass | Sisi Museum

Resolvemos a vida para 3 museus e você continua precisando comprar o passe de transporte. Mas não é difícil: toda estação de metrô e parada de ônibus ou bonde tem as maquininhas. Você escolhe entre o passe de 24 horas (€ 7,60), o de 48 horas (€ 13,30) e o de 72 horas (€ 16,50). Fundamental para andar pela cidade!! Eu comprei na própria estação de trem quando cheguei.

Vienna City Card oficial 

Custa €19 por 24 horas, €31 por 48 horas e €37 por 72 horas, um passe combinado que dá direito a transporte ilimitado por 24, 48 ou 72 horas, e pequenos descontos em museus, atrações e lojas. Se perceber o preço dá um salto em relação ao passe de transportes, ou seja você depende de ir conhecer muitas outras atrações para ter compensação em relação ao passe de transportes. E ele não te tira das filas, então  eu optei pela combinação Sissi Card + Passe de transportes.

Valores consultados em julho de 2026 e sujeitos a alteração.

Ah enfim Viena !!

Sempre foi uma das minhas cidades de sonho, algo que mexe com o imaginário como um centro de luxo e esplendor das épocas antigas, e sem dúvida estamos certos nesse ponto, porém esses eram sonhos de criança e à medida que fui ficando mais velho comecei a perceber que os grandes palácios guardam também marcas de sede de impérios que exploravam a raça humana em troca dessa beleza e esplendor, não me saltam mais tanto os olhos, não é só um detalhe para esquecermos, está no cerne de tudo que vamos ver, ali no palácio de Hofburg tem uma marca de sangue no meu imaginário que não se apaga fácil e a certeza de que estou ficando um velho bem mais ranzinza do que eu queria, é a vida!

Paris se modernizou de um jeito mais simpático, Viena combina beleza com organização de uma forma mais sisuda, o burburinho das ruas é menor mas não há como esconder que foi o centro de um império dos mais poderosos da Europa e do mundo. Ali, 1,9 milhão de pessoas convivem numa cidade imensa mas que é uma fração de grandes cidades brasileiras como Rio e São Paulo. Foram 600 anos como capital do império dos Habsburgos, foi e ainda é centro de música clássica, da psicanálise, aplaudiu de pé a chegada de Adolf Hitler em sua anexação, tem a opulência e esplendor de qualquer cidade com sua história mas .... me frustrou ! 

Não sei bem se foi o papo ranzinza, se a beleza não me enche mais os olhos mas um ano antes eu estava em Lima no Peru empolgado com as crianças cantando na rua, as cores de esperança que podemos ter do mundo, Viena me pareceu uma cidade envelhecida antes do tempo: funcional, elegante e confortável, mas com pouca juventude escapando pelas frestas, onde tudo funciona, onde o café é ótimo e onde a juventude não me mostra tanta esperança pela vida e pelo sorriso quanto no Peru.

Talvez o problema não estivesse em Viena.

Talvez estivesse na cidade que eu havia imaginado durante toda a vida — e que nenhuma cidade real conseguiria ser.

Isso posto, vamos começar a explorar a cidade. 

A caminhada de reconhecimento do primeiro dia 

Depois de resolver as questões burocráticas e logísticas, deixar as malas no hotel (caríssimos em Viena) pegue algum Tram (bonde) ou metrô e siga para a região central e histórica da cidade, existem estações na Stephansplatz e de lá esse foi o trajeto que eu fiz  de Catedral de Santo Estêvão a Schweizertor - Google Maps

Catedral de Santo Estêvão (Stephansdom)

No coração de Viena, na Stephansplatz, está um dos maiores símbolos da cidade: a Catedral de Santo Estêvão. Sua torre domina o horizonte do centro histórico e serve de referência para quem caminha pelas ruas da capital austríaca.
A entrada na nave principal é gratuita e já vale a visita. Existem atrações pagas, como as catacumbas, o museu e o acesso às torres. Eu subi uma delas e, sinceramente, não repetiria a experiência. A vista é bonita, mas, para mim, o verdadeiro espetáculo está no interior da catedral e em sua arquitetura vista da praça.
A história da igreja começou no século XII. A primeira construção, em estilo românico, foi consagrada em 1147. Com o passar dos séculos, o templo foi ampliado até adquirir a aparência predominantemente gótica que vemos hoje. Da antiga igreja ainda permanecem a Porta dos Gigantes e as chamadas Torres dos Pagãos, testemunhas de quase novecentos anos de história.
É uma das catedrais mais impressionantes da Europa. O telhado revestido por milhares de azulejos coloridos, as altas colunas, os vitrais e a riqueza de detalhes fazem dela muito mais do que um monumento religioso. É impossível não refletir sobre o poder político, econômico e cultural exercido pela Igreja Católica durante boa parte da Idade Média e da Idade Moderna. Construções dessa grandiosidade não eram apenas demonstrações de fé, mas também de poder.
Independentemente da religião, vale a pena entrar, caminhar sem pressa e observar cada detalhe. A Stephansdom não impressiona apenas pela beleza; ela conta, em pedra, parte da história da Europa.


Haas-Haus

Goldschmiedgasse 3, 1010 Viena

De frente para a Catedral de Santo Estêvão está um dos edifícios mais polêmicos de Viena: o Haas-Haus.

Inaugurado em 1990, seu projeto moderno, com grandes fachadas de vidro e aço, causou enorme controvérsia entre os vienenses. Muitos consideravam um absurdo construir um prédio contemporâneo diante de um dos maiores símbolos medievais da cidade. Com o tempo, porém, o Haas-Haus acabou sendo incorporado à paisagem e hoje é visto como um interessante diálogo entre duas épocas completamente diferentes.

O contraste é justamente o que torna o lugar especial. De um lado, a imponência da arquitetura gótica da Catedral de Santo Estêvão; do outro, as linhas curvas e os reflexos do vidro espelhado do Haas-Haus, que chegam a refletir a própria catedral em sua fachada.

Vale a pena caminhar ao redor do edifício e observá-lo de diferentes ângulos. É um excelente exemplo de como uma cidade pode preservar sua história sem deixar de dialogar com a arquitetura contemporânea. Mesmo quem não gosta de construções modernas acaba parando alguns minutos para admirar esse contraste.

Dica do Caminho: Vá ao Haas-Haus no fim da tarde. Além da luz valorizar os reflexos da fachada, é nesse horário que a Stephansplatz fica mais movimentada, e o contraste entre a catedral medieval e a arquitetura contemporânea ganha ainda mais vida.

Ainda dá tempo de fazer uma boquinha ali pela praça mesmo nas dezenas de barraquinhas de cachorro quente com salsicha vienense, no Henry Stephansplatz 12, 1010 Wien, (http://www.enjoyhenry.com/) ou na famosa Confeitaria Demel Stephansplatz 12, 1010 Wien. um café muito simpático e estiloso. A localização é perfeita. Se você encontrar um lugar no jardim com vista para a catedral, poderá ser um ótimo ponto de observação.

Pestsäule: a Coluna da Peste

Caminhando um pouco mais a frente na elegantíssima Rua Graber, cheguei no ponto mais comovente da caminhada surgiu diante da Pestsäule, a Coluna da Peste.

Recém-saído da pandemia de Covid-19, eu estava diante de um monumento erguido no fim do século XVII em memória das vítimas da peste que atingiu Viena em 1679. A coluna, dedicada à Santíssima Trindade, mistura fé, sofrimento e gratidão pela sobrevivência da cidade.

Foi impossível não refletir em como a vida anda em ciclos.

Séculos antes, outras pessoas também haviam vivido o medo do contágio, o isolamento, as mortes e a insegurança sobre o futuro. Mudavam os recursos médicos, os conhecimentos e as cidades, mas permanecia a mesma fragilidade humana diante de uma doença que parecia fora de controle.

Ali, no meio de uma rua movimentada e cercada por lojas, cafés e turistas, aquele monumento deixou de ser apenas uma bela obra barroca. Tornou-se uma ponte entre duas epidemias separadas por mais de trezentos anos.

Talvez os monumentos existam justamente para isso: lembrar que aquilo que parece exclusivamente nosso já foi vivido por outros. E que, assim como as dores retornam em ciclos, a capacidade humana de resistir também retorna.

Igreja de São Pedro (Peterskirche)

Petersplatz 1, 1010 Viena
Site: http://www.peterskirche.at/home/

Escondida entre as ruas do centro histórico, a Igreja de São Pedro (Peterskirche) é uma das joias barrocas de Viena. Sua fachada discreta quase passa despercebida, mas basta atravessar a porta para encontrar um dos interiores mais ricos e ornamentados da cidade.

A igreja atual foi construída entre 1701 e 1733, no mesmo local onde existia uma antiga igreja românica, destruída por incêndios. Inspirada na Basílica de São Pedro, em Roma, tornou-se um dos principais exemplos da arquitetura barroca austríaca.

Vale a pena entrar mesmo que você não seja religioso. A decoração dourada, os afrescos da cúpula e a riqueza dos detalhes impressionam pela harmonia e pela sensação de grandiosidade que o barroco buscava transmitir.

Outro destaque são os concertos de música clássica realizados regularmente no interior da igreja. Ouvir Mozart, Vivaldi ou Bach naquele ambiente transforma a visita em uma experiência muito diferente de simplesmente admirar a arquitetura.

É um daqueles lugares que, vistos apenas por fora, parecem pequenos. Por dentro, porém, revelam toda a capacidade da arte de surpreender.

Dica do Caminho: Se puder escolher entre visitar a igreja apenas durante o dia ou assistir a um concerto à noite, fique com a segunda opção. A acústica e a iluminação transformam completamente a experiência.

Kohlmarkt

A Kohlmarkt é uma das ruas históricas mais bonitas e elegantes de Viena.

Ligando a região da Graben à Michaelerplatz, ela conduz o visitante diretamente ao Michaelertor, uma das entradas do complexo de Hofburg. Ao caminhar pela rua, a vista do palácio vai surgindo aos poucos e cria uma das perspectivas urbanas mais bonitas do centro da cidade.

Hoje, a Kohlmarkt concentra lojas de luxo, cafés e edifícios históricos, mas o que mais chama atenção é a harmonia do conjunto arquitetônico. Mesmo para quem não pretende fazer compras, vale percorrê-la com calma, observando as fachadas e a forma como a rua desemboca na imponência de Hofburg.

É um daqueles caminhos em que o trajeto importa tanto quanto o destino.

Igreja de São Miguel (Michaelerkirche)

Chegando à Michaelerplatz, vale a pena dar uma esticadinha até a Igreja de São Miguel (Michaelerkirche).

É uma das igrejas mais antigas de Viena e durante séculos esteve intimamente ligada à corte imperial dos Habsburgos. Seu interior guarda um importante acervo histórico e artístico, além de uma atmosfera muito diferente das grandes catedrais da cidade: mais sóbria, silenciosa e acolhedora.

Outro destaque são suas criptas, onde corpos naturalmente mumificados podem ser visitados em determinadas épocas do ano, oferecendo uma perspectiva curiosa sobre os costumes funerários da aristocracia vienense.

Mesmo para quem já visitou a Catedral de Santo Estêvão, a Igreja de São Miguel merece alguns minutos da caminhada. É um daqueles lugares menos concorridos pelos turistas, mas que ajudam a compreender melhor a história de Viena.

Museu Sisi e Apartamentos Imperiais de Hofburg

Se existe uma visita que eu considero praticamente obrigatória em Viena, é o conjunto formado pelo Museu Sisi e pelos Apartamentos Imperiais do Palácio Hofburg.

Minha recomendação é comprar o ingresso combinado com o Palácio de Schönbrunn. Além de sair mais em conta, evita comprar bilhetes separados para duas das principais atrações da cidade.

O percurso começa pelo Museu Sisi, dedicado à imperatriz Elisabeth da Áustria, uma das figuras mais fascinantes da monarquia dos Habsburgos. Ao longo da visita, conhecemos um pouco de sua personalidade inquieta, sua dificuldade em se adaptar à rígida vida da corte, a obsessão pela beleza e pela extrema magreza, além da profunda melancolia que a acompanhou durante boa parte da vida.

A exposição reúne vestidos, objetos pessoais, retratos, joias e diversos itens que ajudam a compreender por que Sisi se tornou uma personagem quase mítica da história austríaca. Confesso, porém, que essa primeira parte não foi a que mais me agradou. O audioguia é pouco intuitivo, os corredores são estreitos e, em horários de grande movimento, forma-se uma concentração de pessoas que dificulta observar as peças com tranquilidade.

Já os Apartamentos Imperiais mudam completamente a experiência.

São dezenove ambientes que serviram de residência oficial da família Habsburgo durante séculos. Salões, escritórios, dormitórios e salas de recepção permanecem cuidadosamente preservados e permitem imaginar o cotidiano da corte imperial. O audioguia passa a fazer muito mais sentido nessa etapa, contextualizando cada ambiente e explicando como viviam o imperador Francisco José e a imperatriz Elisabeth.

A coleção de pratarias e utensílios domésticos talvez não desperte o interesse de todos, mas o conjunto da visita impressiona. Mais do que conhecer a vida de Sisi, o passeio permite compreender a dimensão do poder e do luxo que cercavam o Império Austro-Húngaro. Sim sim é o tipo de museu onde ver as porcelanas da rainha e o pinico do Rei contextualizam um pouco as coisas, não adoro mas ajuda um pouco a dar sentido em todo o resto.

Vale muito a visita.

Mesmo para quem, como eu, não costuma ser um entusiasta de museus dedicados à vida da nobreza, a experiência acaba compensando pela riqueza histórica dos apartamentos e pela excelente conservação do palácio.

Grave e pesquise mais sobre esses dois personagens imperador Francisco José e a imperatriz Elisabeth. Mais tarde falo melhor sobre eles.

Termine o dia como um vienense: um concerto na Igreja de São Pedro

Depois de visitar Hofburg e o Museu Sisi, minha sugestão é simples: não tente encaixar mais um museu no roteiro.

Volte ao hotel, tome um banho, troque de roupa e descanse um pouco.

Você já conhece o caminho até a Igreja de São Pedro (Peterskirche), então poderá voltar para um lugar onde já esteve sem preocupação de se perder.

É hora de viver Viena.

A Peterskirche, construída no século XVIII sobre as ruínas de uma antiga igreja românica, é uma das mais belas igrejas barrocas da cidade. Durante o dia, ela impressiona pela decoração dourada e pelos afrescos da cúpula. À noite, transforma-se em um dos cenários mais elegantes para ouvir música clássica.

Os concertos costumam reunir obras de Mozart, Vivaldi, Bach, Beethoven e Schubert, interpretadas pelo Classic Ensemble Vienna. A acústica da igreja é excelente e a proximidade entre músicos e plateia cria uma experiência muito diferente da encontrada nas grandes salas de concerto.

Foi, sem dúvida, uma das melhores noites da viagem.

Não apenas pela qualidade da música, mas porque, naquele momento, tudo parecia fazer sentido. Durante o dia eu havia conhecido os palácios, a história da família Habsburgo e o esplendor do Império Austro-Húngaro. À noite, estava ouvindo a trilha sonora produzida por aquela mesma cidade.

É como se Viena finalmente se apresentasse.

Como se vestir?

Não existe um código de vestimenta obrigatório para os concertos realizados na Igreja de São Pedro.

Mesmo assim, vale a pena aproveitar a ocasião para caprichar um pouco mais no visual. Os vienenses costumam comparecer muito bem vestidos aos concertos e teatros, enquanto os turistas normalmente adotam um estilo bastante casual.

Não é necessário usar terno ou vestido de gala, mas uma calça social ou de sarja, camisa e sapato — ou um vestido simples e elegante — fazem você entrar no clima da cidade.

Mais do que seguir uma regra, vestir-se um pouco melhor é uma forma de transformar a noite em uma experiência especial.

Dica do Caminho

Se eu tivesse apenas uma noite em Viena, faria exatamente esse roteiro:

  • Hofburg durante a tarde;
  • retorno ao hotel para descansar;
  • concerto na Peterskirche;
  • jantar leve no centro histórico.

Poucas experiências conseguem resumir tão bem a essência da cidade.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Caminhos da Memória

Centro do Rio de Janeiro — um almoço, um café e trinta anos de lembranças.

Ah, a nostalgia de um almoço no centro da cidade...

Quantos anos se passaram na minha memória nos poucos minutos em que desci a Rua Miguel Couto, como se estivesse entrando em um portal que me levava trinta anos atrás.

Que anos de ouro eu vivia em torno dos meus vinte anos: um bom emprego, um amor e uma vida inteira pela frente.

Hoje reencontro o passado e o centro da cidade. Não que tenha ficado esse tempo todo sem vir aqui ou sem remoer lembranças, mas hoje é diferente. Estou sozinho em meus pensamentos. Poucos problemas me importam. A luz de um dia de outono colore a cidade. São dias de efervescência durante uma Copa do Mundo. O corre-corre nas ruas demonstra o frisson dos jogos, como aquela efervescência do passado.

Atravesso a Avenida Rio Branco fora do sinal, em passos apressados que eu fazia quando tinha vinte anos. Como é bom repetir esses movimentos de liberdade.

Pensei meticulosamente em qual local explorar, em qual restaurante ir, mas, no final, simplesmente me deixei levar pelo instinto e segui rumo a um restaurante velho conhecido, embora hoje funcione em outro endereço.

Como eu queria estar entre os amigos do passado. Amigos que nem vivos estão mais. Mas que certamente estavam ali nos meus pensamentos, no meu respeito e na minha gratidão por terem me ensinado muitos desses caminhos.

O novo restaurante Bunda de Fora, do Esquimó, fica em frente ao memorável Beco dos Frangos Marítimos, que em breve vai fechar. Não porque exista uma placa anunciando isso, mas porque segue o mesmo destino de tantos outros lugares do centro: está com os dias contados e as mesas vazias.


De frente para ele está um restaurante que se reinventou, mas mantém a fórmula infalível da comida popular, saborosa e farta, onde ainda se pode comer como um rei, mesmo em um restaurante simples.

Pago a conta, levanto e as imagens começam a surgir.

Ando para o lado errado do meu caminho. Distraio-me em pensamentos, memórias e emoções.

Lembro do meu avô.

Dou um sorriso no canto da boca.

Com ele, muito do que sou começou.

Lembro do meu pai.

Lembro de amigos.

Que vontade de contar tudo isso para os meus filhos. De passar para eles um pouco dessa emoção.

Vou escrever quando chegar em casa, eis aqui o resultado, o tempo como protagonista, eu como expectador!

Mando mensagens para alguns amigos remanescentes, tentando reviver aqueles momentos. Eles vibram comigo..Convido uma sobrinha para almoçar comigo ali qualquer dia desses brinco com ela dizendo que se ela não conhece isso está vivendo errado !

Penso:

— É só o centro da cidade.

Logo em seguida me corrijo:

— Não... é a minha vida.

Saio para um café.

Rua Larga. Café Capital.


Meu avô falava dos bondes. Hoje vejo o VLT passando pelo mesmo local.

Peço um café coado.

Um frio percorre minha espinha.

Depois de décadas tomando expresso, aquilo deveria estar horrível.

Procuro o açucareiro de boteco sobre o balcão.

Ele não está mais ali.

Os sachês de papel mostram que tudo ficou gourmetizado.

Faço um esforço para vencer minha resistência e me entregar ao momento.

Depois de anos, reencontro minhas raízes e coloco açúcar no café.

Que delícia.

Aproveito para entrar no Paladino e olhar lá dentro.

Esse eu já visitei outras vezes, mas agora era apenas uma espiada.

Vejo garçons conhecidos.

Entro novamente naquela atmosfera.

Uma lágrima escorre no canto do olho.

Que dias gloriosos eu tive.

E quantos ainda tenho.

A vida é feita de pequenos movimentos, gestos, sorrisos e emoções.

Quando sabemos valorizá-los, descobrimos que a felicidade quase sempre esteve ali, esperando por nós nos lugares mais simples.

sábado, 28 de março de 2026

O Esplendor Torto do Rio de São Sebastião

De belezas tortas a naturezas mortas,

de fino esplendor,

um Rio de fé e de calor.

Sinuosa cidade,

que vive sem paz,

que perdeu a bondade.


Entre o mar que abraça e o morro que vigia,

o sol derrama ouro sobre as feridas do dia a dia.

Cartões-postais escondem cansaços antigos,

e o riso fácil disfarça o peso da vida.

Há vida pulsando em cada esquina —

mas também há silêncio que ninguém anuncia.


Ainda assim, resiste.

No samba que insiste em nascer do chão,

no abraço apertado que desafia o caos,

na beleza que teima em não morrer.

Porque o Rio é contradição que respira:

um coração ferido — que nunca deixa de bater.




terça-feira, 14 de outubro de 2025

Budapeste Fervilha

 

O Castelo de Buda com a Ponte das Correntes em primeiro plano


A Hungria é uma nação no centro do mundo. A cultura de um país milenar que se alimenta de culturas diversas desde seus invasores até povos próximos. Essa miscigenação de culturas, somada a uma história, longa e por muitas vezes sofrida, fez do país um agregador de culturas do mundo, uma curva riquíssima do rio Danúbio. Poucas culturas conseguiriam se manter ao longo de milênios com tantas influências, foram invasões mongóis, otomanas, germânicas, austríacas, nazistas e soviéticas. São influências de todos esses além de romanas, italianas, alemãs, francesas e americanas

Os Cárpatos é um meio do caminho da Europa ocidental , do sul e leste europeus, mas também com influência indiana, iraniana, judaica, grega e turca. Dentro dessa miríade de culturas o país próspera  com complexidade e dualidade. 

O movimento frenético de barcos atravessando a parte mais charmosa do Rio Danúbio contrasta com a vida ainda um pouco pacata de uma cidade com  um pouco mais de 1,5 milhões de habitantes. As tristezas do passado comunista dão lugar ao capitalismo sem freio. A austeridade do povo sede espaço aos bares cheios de vida e noitadas animadas. Budapeste prega a democracia e a renovação mas teve apoio em regimes autoritários próprios e dos seus invasores e em governos como o do primeiro ministro Viktor Orban que governa o país há 15 anos.

 É um povo rude e sério (que beira o mal educado) contrastando com  crianças lindas e risonhas. Mil anos de história e parece que ainda tentam se descobrir como nação. 

sábado, 11 de outubro de 2025

A rica história da Hungria

 A Hungria não é um país qualquer, viajar pra lá requer olhos atentos e interesse histórico, pois você pode até viajar para um lugar bonito, mas entender suas nuances vai enriquecer muito mais sua passagem e trazer entendimento de como as coisas são atualmente.

A origem da história húngara, nos remete as 7 tribos Magiares que vieram dos Montes Urais e se estabeleceram nos Cárpatos no século IX, no ano 1.000 com a oficialização do reino e a coroação do Rei Cristão Estevão I (Santo Estevão).

Praça dos Heróis (os 7 líderes Magiares que fundaram a nação).


Monumento de Santo Estevão no Bastião dos Pescadores 

O nome “Hungria” deriva do termo turco onogur, que significa “dez flechas”, simbolizando a união militar dessas tribos. As 7 Magiares e outras 3 aliadas.


Depois de um período de consolidação do poder, com a eliminação de pagãos, conversão ao cristianismo e expansão para regiões como a Transilvânia, a Hungria enfrentou invasões mongóis entre 1241 e 1242 (executada por Batu Cã, neto de Gengis Khan) e isso devastou o reino. Batu Cã teve que retornar à Mongólia depois de conquistar partes da Rússia, da Polônia, Hungria e Áustria. Seu avô havia morrido e ele precisava participar da sucessão imperial. Iniciou-se aí um período de reconstrução com o Rei Béla IV.

Béla, é considerado o segundo baluarte do império pois praticamente refundou o reino. Ele iniciou a fortificação do território com a construção de fortes e castelos (inclusive o de Buda). Reorganizou uma reforma no sistema feudal fortalecendo o poder real e comprando a lealdade de nobres  por meio de concessões de terras (aí surge na Transilvânia uma certa dinastia Vlad que ficaria famosa anos depois num livro de contos de Bram Stocker). Para recuperar a população dizimada pelos Mongóis, convidou colonos alemães, eslavos e valões para ocupar o território, dando isenção fiscal e liberdade religiosa. Criou reconstruções urbanas em torno de fortalezas, criando novas vilas que iriam impulsionar o comércio e a economia local. Se fosse um político atual, com certeza usaria como slogan de campanha os dizeres "por uma Hungria forte novamente".

Castelo de Buda criado por Béla IV


Cerca de 300 anos depois os problemas começaram com a expansão do império Otomano nos Bálcãs, até que em 1526 foram derrotados na batalha de Mohács e o rei morreu na fuga. Com a vacância de poder, este foi dividido entre os Otomanos e os Habsburgos em 1541, os Otomanos conquistaram Buda e se consolidaram no poder até o final do século XVII quando os Habsburgos enfim iniciariam a reconquista e se consolidaram no poder. 

Durantes essas guerras contra os Otomanos um líder daquela dinastia Vlad que eu me referi mais cedo, teve seus filhos sequestrados pelos otomanos para que ele como seu poderoso exército lutasse contra os húngaros mesmo contra a sua vontade. Durante as batalhas esse líder morreu e seu filho sedento de vingança conseguiu fugir do cativeiro iniciando uma carnificina nas frentes otomanas, o que lhe valeu uma aura mítica que foi criativamente usada por Bram Stoker na criação de seu personagem Drácula

Como a influência e proteção dos Habsburgos da Áustria, o período foi de grande prosperidade porém após a revolução francesa, ficou claro que o modelo absolutista adotado não se sustentaria e com reordenação do mapa político europeu após o período napoleônico a pressão nacionalista vindo do processo de unificação da Itália e da Alemanha fez com que movimentos nacionalistas húngaros também se iniciassem, mesmo sendo reprimidos havia-se de se dar alguma autonomia à região e nesse contexto criou-se um império dual em 1867. Dois Estados autônomos: Império da Áustria e Reino da Hungria, cada um com seu próprio parlamento, governo e administração mas com instituições compartilhadas na política externa, defesa e finanças. Francisco José I foi simultaneamente imperador da Áustria e Rei da Hungria. Aí surgiu a popular figura de Sissi, a esposa de Francisco José e simpática a causa húngara. Praticamente uma Lady Diana do século XIX.


Sissi a imperatriz Austríaca sendo homenageada na Hungria.

Esse novo arranjo fortaleceu a Hungria mas deixou insatisfeitos outros grupos étnicos com tchecos, eslovacos, croatas, romenos, ucranianos e sérvios. Até que em meio a conflitos populares da Sérvia em 1914,  Francisco José resolveu mandar seu herdeiro do trono para Sarajevo um grupo nacionalista radical cometeu um atentado (da mesma forma que suspeita-se que tenha ocorrido com Rudolph, filho legítimo de Francisco José e que ocorreu com Sissi). O mesmo foi morto desencadeando o estopim da Primeira Guerra Mundial.

Franz Ferdiand momento antes de sua morte a a de sua esposa, o início da 1a Guerra mundial

Por uma série de alianças, o império Áustro - Húngaro ao declarar guerra à Sérvia, tinha uma aliança com a Alemanha e Itália que acabaram declarando guerra aos aliados da Sérvia (Rússia, França e Inglaterra). O resto é história.... mas a Primeira guerra mundial fez o mapa da Europa mudar ...

Mapa da Europa antes da 1a Guerra

O esfacelamento do Império Áustro -Húngaro criou novos países no cenário político.

Mapa da Europa com vários novos países depois da 1a guerra

O Tratado de Versailles formalizou as mudanças, decretou a a derrota e impôs pesadas penalidades principalmente para a Alemanha, a partir daí eu costumo a considerar que já seja o início da Segunda Guerra mundial (a revanche alemã). Mas as coisas não pararam por aí especificamente para a Hungria houve ainda o Tratado de Trianon de 1920 onde perdeu 2/3 de seu território e metade da sua população. Regiões foram divididas entre a Romênia, a Tchecoslováquia e Iugoslávia e o sentimento imediato foi de humilhação nacional gerando movimentos ultra nacionalistas radicais (assim como na Alemanha).  

Especificamente na Hungria o movimento foi liderado pelo partido da Cruz Flechada em 1939, eram ultranacionalistas, antissemitas, anticapitalistas, antissocialistas e redentistas (reivindicavam os territórios perdidos no Tratado de Trianon). Só subiram ao poder após uma tentativa fracassada de sair da guerra.

A íntegra do manifesto colocado no momumento popular : " Este monumento foi encomendado pelo governo da Hungria (ou, para ser mais exato, pelo primeiro-ministro Viktor Orbán, com poder quase ilimitado) e erguido furtivamente, após inúmeros atrasos, sob o manto da noite que amanheceu em 20 de julho de 2014. Na beira da calçada em frente ao memorial, você pode ver esculturas comemorativas, objetos pessoais, fotografias, livros e documentos. Estes foram trazidos aqui sem serem convidados nos últimos anos por cidadãos indignados com a falsificação da história que se manifesta no monumento, que foi erguido arbitrariamente sem consulta aos planejadores urbanos e à comunidade. Na redação oficial, o conjunto escultórico comemora a ocupação alemã da Hungria em 19 de março de 1944. Como resultado do escândalo que se seguiu à publicação do projeto, o texto foi alterado para "as vítimas da ocupação". A figura central da composição é o Arcanjo Gabriel personificando a Hungria inocente, deixando cair (na verdade, parece oferecer) o orbe do país, enquanto a águia imperial alemã se prepara para atacar. Assim, a obra reflete subservientemente a nova constituição do partido político populista e autoritário no poder, imposta à população novamente sem qualquer consulta, sugerindo que o Estado da Hungria não tem responsabilidade pelo genocídio após a ocupação alemã, incluindo a deportação de quase meio milhão de cidadãos húngaros (principalmente judeus, mas também ciganos, gays e dissidentes) para campos de extermínio nazistas. Este monumento é uma mentira a serviço de uma intenção política. A Hungria foi uma aliada fiel da Alemanha de Hitler durante a Segunda Guerra Mundial, sendo a primeira, em 1940, a se juntar às potências do Eixo. Em 19 de março de 1944, as tropas alemãs que chegavam foram recebidas com buquês em vez de balas. Essa ocupação deixou a administração estatal intocada e a administração, por sua vez, organizou e executou com entusiasmo e muita eficácia as deportações em massa, superando até mesmo as expectativas alemãs. A Hungria foi a primeira na Europa, em 1920, a aprovar uma lei antissemita seguida por uma série de leis semelhantes, cada vez mais severas, privando os judeus húngaros de cada vez mais direitos; o estado que enviou para a morte vinte mil pessoas incapazes de certificar sua cidadania húngara; o estado cujos gendarmes e soldados assassinaram vários milhares de civis em Novi Sad no inverno de 1942-43; o estado que sacrificou duzentos mil soldados em uma guerra sem sentido, enquanto algumas de suas unidades de ocupação no exterior cometeram uma série de crimes de guerra contra a população civil. Os membros da Academia Húngara de Ciências condenaram unanimemente a mensagem sugerida por este monumento, rotulando-o como uma tentativa de reescrever a história. "


A águia maldosa nazista usurpando a maçã da pobre coitada Hungria, mas a história não foi bem assim ...

A Hungria apoiou Hitler formalmente a partir de 1940, soldados húngaros invadiram a Iugoslávia e a União Soviética tendo grandes perdas em Stalingrado. Vendo que estavam do lado errado, e já no fim da guerra em 1944, tentaram um armistício com os aliados. Em resposta a isso, Hitler iniciou a Operação Margarethe invadindo a Hungria e colocando, aí sim, os Flechas Cruzadas no poder. Iniciou-se uma severa perseguição aos judeus e ciganos (estima-se que entre 10 e 15 mil civis foram mortos), 80 mil judeus foram deportados para campos de concentração na Áustria nesse período.

Monumento em homenagem aos milhares de judeus e opositores do regime que eram colocados na margem do Danúbio e fuzilados pelos nazistas.


Logo após o cerco de Budapeste, em março de 1945 o Exército Vermelho "libertou" a Hungria do regime autoritário e iniciou outro período de ocupação, pelo apoio à Alemanha, fizeram questão de devastar o país com infra estrutura colapsada. O saldo da guerra foi de 300 mil soldados e 600 mil civis mortos, além disso os traumas persistem até hoje e se seguiram décadas de ocupação soviética.

Iniciou-se assim o regime comunista húngaro de 1945 a 1991. Apesar da URSS ter libertado a Hungria das mãos dos alemãs, nada mais foi que uma troca de ocupantes no poder, o período foi de repressão política, controle ideológico, presença militar contínua e transformações socioeconômicas profundas. Mesmo perdendo as eleições de 1945 o Partido Comunista gradualmente chegou ao poder, em outubro de 1956, a população se rebelou contra o regime e foi violentamente reprimida com uma invasão de tanques soviéticos nas ruas de Budapeste e combates sendo travados nas suas esquinas... cerca de 10 anos mais tarde esse movimento influenciaria a primavera de Praga (outro movimento similar). 

Monumento aos mortos caídos após a revolta de 1956

Em 1989 as tropas soviéticas começaram a se retirar, em 1991 formalizou-se a retirada dando início a república democrática e a uma economia de mercado, o capitalismos floresceu de forma feroz. Atualmente a ocupação da capital Budapeste é formada por hordas de turistas que buscam conhecer um pouco da beleza e da história desse povo. 




quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Viajar é atravessar o tempo: a história que vive em cada esquina.

Uma das maiores forças que impulsionam o turismo é a diversidade cultural que existe no mundo. Cada língua, prato típico, costume ou religião carrega marcas de acontecimentos que moldaram aquele lugar — muito antes de nossa chegada.

E não estamos falando apenas de grandes eventos históricos, como visitar a Sala dos Espelhos onde foi assinado o Tratado de Versailles, o castelo da Defenestração de Praga ou o salão onde Mozart se apresentou pela primeira vez. A história também vive nos detalhes menos óbvios.

 A arquitetura local, por exemplo, é um reflexo direto do passado. Ela revela como os povos usaram os materiais disponíveis, se adaptaram ao clima e até encontraram formas criativas de pagar menos impostos aos governantes da época. Cada construção tem uma razão de ser — e uma história para contar.

A gastronomia também é um livro aberto. Sabores como o goulash húngaro, o Cury indiano ou o acarajé baiano são testemunhos vivos de tradições, trocas culturais e até conflitos. Já ouviu falar da “guerra do croissant”? Pois é, até os pães têm seus embates históricos.

Religiões e crenças deixam marcas profundas. É comum encontrar igrejas transformadas em mesquitas, templos que viraram museus, ou festivais que misturam rituais ancestrais com celebrações modernas. Cada transformação carrega camadas de significado.

Viajar é mais do que deslocar-se fisicamente — é atravessar o tempo.
É um convite à reflexão, ao respeito pelo passado e à inspiração para o futuro. É entender que cada esquina tem algo a ensinar, e que o mundo é um mosaico de histórias esperando para serem descobertas.

segunda-feira, 3 de março de 2025

Conhecendo o Peru - Parte 3: Lima de 3 a 4 dias

 Lima é uma capital típica da América do Sul, contrastes, transito caótico mas por fim acolhedora. O clima é quase um desértico apesar das nuvens densas que ficam sempre no céu, o índice pluviométrico é baixíssimo.

Com 3 dias você resolve as questões práticas (chip, câmbio, espanhol), tem tempo para passear pela cidade, saborear a culinária peruana e aproveitar as duas horas de fuso horário atrasado (a seu favor) para se recuperar da viagem de vinda e chegar descansado nas outras etapas da viagem.

Lima não é uma cidade pequena, tem 10 milhões de habitantes (dos 34 milhões de todo o Peru), é a segunda maior da América do Sul, sendo maior que Rio, Buenos Aires, Bogotá e só perdendo para São Paulo.

35% da população do Peru mora em Lima, pra se ter uma ideia da disparidade, a segunda maior cidade do Peru é Arequipa que tem cerca de 940.000 habitantes, ou seja ... Lima é 10 vezes maior !

Onde ficar

Lima é formada por algumas regiões independentes, entenda como bairros politicamente independentes mas isso pouco importa na hora de escolher, mas a medida que você está saindo do aeroporto e indo para o seu destino pode ficar um pouco confuso vendo, sistemas de coleta de lixo, organização de transito e etc bem diversos em lugares próximos e dentro da grande Lima. Os bairros mais charmosos para se hospedar são San Isidro e Miraflores, ambos relativamente bem localizados em relação ao centro histórico e ao litoral. O bairro de Barranco é um pouco mais longe, porém segue sendo uma ótima opção e é um bairro mais descolado.

A chegada

Logo depois da imigração no aeroporto de Lima você passará por uma sala onde estão os guichês das locadoras, dos remisses (que são os trânsfers pré-contratados junto aos hotéis) e de um “táxi oficial”.

Pré-contratar um trânsfer com o seu hotel é uma boa; costumam cobrar 20 dólares pela corrida até 3 passageiros e incluem na conta (normalmente os hotéis oferecem esse trânsfer por email, ao confirmar a sua reserva, mesmo as feitas pelo Booking. 

Se o seu hotel não oferecer trânsfer, ou você estiver num Airbnb (ótima opção em Lima), você também pode reservar um transfer online pela TaxiDatum, que também cobra 20 dólares em carro particular para até 4 pessoas.

Caso você não tenha pré-contratado o transfer, passe reto para o saguão do desembarque e não caia na furada dos "táxi oficiais", são caríssimos (prá lá de US$50 até Miraflores ou San Isidro). No saguão de desembarque no lado esquerdo você encontra o guichê do Taxi Green, essa Cia detém a concessão de táxi comuns no aeroporto de Lima, ali você compra uma corrida tabelada que varia entre 55 e 60 Soles para Miraflores ou San Isidro. O serviço é seguro, os carros relativamente novos e aceitam cartões de crédito e débito. Outra opção é o Uber ou Easytaxi, veja o que sai sai mais barato na hora. 

Sinceramente eu gosto de fazer a ambientação dos lugares onde chego de uma forma minimamente segura e barata, então eu mesmo optei pelo Green Taxi.

Não se assuste se a saída do aeroporto parecer caótica e feia, a maior parte das cidades é assim mesmo, lembre-se você está num típico país de terceiro mundo, que já foi espoliado e que teve uma política conturbada, uma economia cambaleante e disparidades sociais gravíssimas, visitar um país e entender sua alma vai muito além dos pontos turísticos. Viver e ver todos os aspectos do lugar onde estamos visitando torna a viagem mais rica e cheia de propósitos.

O que fazer e que estratégia seguir no primeiro dia

Lima tem restaurantes sensacionais, um museu a céu aberto, coisas interessantíssimas e uma orla que vale a pena, podemos fazer praticamente tudo a pé ! Com deslocamentos maiores de táxi ou Uber.

Em geral os vôos saindo do Brasil chegaram em Lima por volta da hora do almoço, dá tempo de sobra pra já bater uma perninha assim que sair do aeroporto e deixar as malas no hotel. Minha sugestão é preencher esse primeiro dia com algo leve e que já dar uma degustação do que vem pela frente, o maravilhoso Museu Larco é muito bem organizado com uma arte pré colombiana, conhecendo ele logo de cara, o que vem pela frente fica de mais fácil compreensão. Fica num casarão confortável e muito bem organizado, relativamente longe das outras atrações de Lima e por isso é bom destacá-lo do resto no dia da chegada. O Museu Larco revela é a evolução da civilização no Peru até o breve período em que os incas unificaram os Andes sob seu império.
Há galerias dedicadas às diferentes culturas que antecederam os incas, explicando suas contribuições. O acervo é dividido em galerias por material — ouro, prata, têxteis, cerâmica. A mais cobiçada das salas é a galeria de cerâmica erótica — mas acredite, trata-se apenas de uma curiosidade; o museu já seria totalmente imperdível mesmo sem essa seção.
Aproveite e coma no restaurante anexo ao museu que é maravilhoso !!! Não vou entrar em muitos detalhes sobre a culinária peruana com dicas de restaurantes porque praticamente tudo o que comi foi sensacional, mas não pode deixar de aproveitar o nível do mar para provar as bebidas alcoólicas porque na altitude isso pode ser um problema, então prove um Chilcano que é outro drink de Pisco, não tão famoso e que leva ginger ale, suco de limão e angostura, achei forte e prefiro Pisco Sour mas .... a hora de provar é agora!


Para a noite do primeiro dia aproveite para ir ao Barrancouma antiga vila de pescadores que atualmente é um bairro boêmio, Seguir a Avenida San Martin até a Plaza de barranco e ver os murais de Jade Rivera e a ponte dos suspiros, faça um pedido e atravesse a ponte sem respirar, se sentir um pouco de falta de ar nesse momento é melhor consultar um médico antes de ir pra altitude! Pra terminar a noite busque algum bom restaurante por lá mesmo, o Isolina entrega o que promete mas costuma ficar cheio e é melhor reservar, o Astrid Gaston é um dos mais badalados da cidade e conhecido internacionalmente.

Segundo dia 

Para o segundo dia prepare-se para caminhar pelo centro da cidade, o Centro Histórico de Lima é patrimônio da humanidade desde 1991 e pelos seus palácios concentram-se uma parte importante da história do país e da América do Sul, todo o modelo colonial europeu nas américas foi criado com base no que o Peru tinha a ser explorado. São centenas de ruelas que nos levam ao tempo de colônia e vice-reinado, são 608 monumentos tombados pela UNESCO. Não deixe de ir na Plaza de Armas, na Catedral de Lima, no seu prédio vizinho o Palácio Arquiepiscopal, no Palácio de La Union, no Palácio Municipal e do Governo. Desses só a catedral é do período colonial, os demais mantém uma arquitetura colonial mas são do início do século XX pois entre as décadas de 20 e 40 estava em voga a arquitetura neocolonial com belos balcões de madeira entalhada.



Apesar da Plaza Central ser um marco, não comece por ela... vá na Jirón de La Union que é uma rua de pedestres e veja a Iglesia Nuestra Señora de la Merced, de estilo barroco com vários altares em madeira e lindas esculturas e uma cruz que dizem que faz milagres a quem ora aos seus pés. Na porta dessa igreja as 11:00 sai um tour a pé gratuito 

A partir disso, não é preciso se preocupar muito com o que ver pois o recorrido é bem completo:
  • Jirón de la Unión
  • Casa Bernardo O’Higgins — visita exterior
  • Estudio fotográfico de Eugenio Courret — visita exterior
  • Casa de Correos y Telégrafos — visita exterior
  • Casa Osambela — visita exterior
  • Iglesia de Santo Domingo – visita interior
  • Plaza de Armas
  • Cambio de Guardia — opcional
  • Bar Cordano — opcional
  • Casa de la Literatura Peruana – visita interior
  • Degustación del Pisco — opcional
  • Parque de la muralla colonial
  • Iglesia de San Francisco — visita exterior

Além desses eu iria ao Museu Convento Santo Domingo

Quando eu visitei o centro histórico ele estava fechado boa parte da manhã para o funeral do ex-presidente Alberto Fujimori, cheguei a seguir esse passeio a pé por um tempo pois e seguia praticamente tudo o que eu já tinha marcado previamente de conhecer, porém me perdi da guia no meio da confusão do funeral, acabei fazendo tudo por conta própria sem maiores problemas, incluí a Plaza Peru e a Plaza San Martin no meu roteiro mas sinceramente essa última não tem muita graça. Almocei um butifarra no Cordano, que é um bom bar bem tradicional e ali bebi pela primeira vez algo que adorei e usufruí até o fim da viagem a Chincha Morada que é uma bebida não alcóolica feita de milho roxo.

Terceiro Dia 

Para o terceiro dia é importante acordar bem cedo, as coisas em Lima costumam abrir tarde (por volta de 10:00) mas é possível fazer um passeio cedo e tomar um café da manhã na rua mesmo. Vá direto para o coração do bairro de San Isidro para umas caminhada leve no meio de 1.500 oliveiras, o parque El Olival é único, lindo e no meio de um bairro charmoso, o Hotel Sonesta fica numa extremidade do parque, então é por lá que começamos uma caminhada bem cedinho, por volta das 8:30 com um friozinho da manhã com destino a outra extremidade do parque na Calle Victor Maurtua 225, também em San Isidro, a região parece um Oásis urbano.

Depois, um outro oásis, mas dessa vez histórico, encravado entre Miraflores e San Isidro o Huaca Pucllana é uma pirâmide gigante construída com tijolos de argila entre 200 e 700 DC pela cultura lima, a construção impressionante passou séculos escondida e já foi usada até como pista de motocross até ter seu interesse histórico descoberto depois que a urbanização da cidade já havia começado. O passeio é obrigatoriamente feito por um guia do local e dura 40 minutos, leve boné e protetor solar !! Ah quem diga que é um monte de pedras velhas, se você pensar assim, seu lugar não é o Peru. Você estará literalmente pisando na história, toda uma cultura foi construída ao redor dessa magnífica pirâmide.

Saindo da Huaca Pucllana, pegar um taxi para o Malecon de Miraflores que é uma espécie de aterro do Flamengo na região costeira e que tem 15 parques num complexo com uma bela vista do pacífico. Toda a região tem uma ciclovia e eu optei por alugar uma bicicleta e conhecer tudo em cerca de 1 hora e meia, aí o taxi tem que ir para o Módulo Mirabici no Parque Alfredo Salazar, além desse parque se seguirmos em direção ao norte, passamos pelo Maria Reiche, Farol da Marinha, Parque Chinês, Parque del Amor, voltando para devolver a bicicleta podemos ir caminhando alguns metros até o Shopping Larcomar, que além se ser um porto seguro depois de um dia cheio, é muito bonito construído na encosta, com muitos espaços abertos com vista para o mar.

Para quem está com crianças, ainda dá pra correr pra pegar um taxi em direção ao Parque de la reserva onde o Circuito Mágico das águas é uma espécie de parque xangai peruano, uma mistura de belo e brega. Como já será início da noite e tem muito spray de água envolvido é bom levar um casaco.

 Um possível quarto dia

Não há muito mais o que fazer em Lima num dia extra, e se não for a preparação para a segunda fase da viagem com um avião para Cusco, Puno (via Juliaca), Arequipa ou Nasca. Vá para um bate e volta em outro achado arqueológico monstro, o Pachacamac, além disso o Vale do Ica possui, oásis no deserto com vinícolas lindas.




Museu Larco
  • Endereço: av. Bolívar, 1515, Pueblo Libre

  • Horário: diariamente 9h-22h

  • Ingressos:

    • inteira: 30 soles

    • 9 a 14 anos: 15 soles

    • até 8 anos: grátis

    • 60+: 25 soles

  • Site oficial

Iglesia Nuestra Señora de la Merced

Jirón de la Unión 621, Lima 15001, Peru

Tour gratuito pelo centro histórico


Huaca Pucllana 

General Borgoño, quadra 8
de 4a a 2a das 9:00 às 17:00 - 12 soles
de 4a a domingo das 19:00 às 22:00 - 15 soles

Aluguel de biciclena no Malecon de Miraflores