Centro do Rio de Janeiro — um almoço, um café e trinta anos de lembranças.
Ah, a nostalgia de um almoço no centro da cidade...
Quantos anos se passaram na minha memória nos poucos minutos em que desci a Rua Miguel Couto, como se estivesse entrando em um portal que me levava trinta anos atrás.
Que anos de ouro eu vivia em torno dos meus vinte anos: um bom emprego, um amor e uma vida inteira pela frente.
Hoje reencontro o passado e o centro da cidade. Não que tenha ficado esse tempo todo sem vir aqui ou sem remoer lembranças, mas hoje é diferente. Estou sozinho em meus pensamentos. Poucos problemas me importam. A luz de um dia de outono colore a cidade. São dias de efervescência durante uma Copa do Mundo. O corre-corre nas ruas demonstra o frisson dos jogos, como aquela efervescência do passado.
Atravesso a Avenida Rio Branco fora do sinal, em passos apressados que eu fazia quando tinha vinte anos. Como é bom repetir esses movimentos de liberdade.
Pensei meticulosamente em qual local explorar, em qual restaurante ir, mas, no final, simplesmente me deixei levar pelo instinto e segui rumo a um restaurante velho conhecido, embora hoje funcione em outro endereço.
Como eu queria estar entre os amigos do passado. Amigos que nem vivos estão mais. Mas que certamente estavam ali nos meus pensamentos, no meu respeito e na minha gratidão por terem me ensinado muitos desses caminhos.
O novo restaurante Bunda de Fora, do Esquimó, fica em frente ao memorável Beco dos Frangos Marítimos, que em breve vai fechar. Não porque exista uma placa anunciando isso, mas porque segue o mesmo destino de tantos outros lugares do centro: está com os dias contados e as mesas vazias.
De frente para ele está um restaurante que se reinventou, mas mantém a fórmula infalível da comida popular, saborosa e farta, onde ainda se pode comer como um rei, mesmo em um restaurante simples.
Pago a conta, levanto e as imagens começam a surgir.
Ando para o lado errado do meu caminho. Distraio-me em pensamentos, memórias e emoções.
Lembro do meu avô.
Dou um sorriso no canto da boca.
Com ele, muito do que sou começou.
Lembro do meu pai.
Lembro de amigos.
Que vontade de contar tudo isso para os meus filhos. De passar para eles um pouco dessa emoção.
Vou escrever quando chegar em casa, eis aqui o resultado, o tempo como protagonista, eu como expectador!
Mando mensagens para alguns amigos remanescentes, tentando reviver aqueles momentos. Eles vibram comigo..Convido uma sobrinha para almoçar comigo ali qualquer dia desses brinco com ela dizendo que se ela não conhece isso está vivendo errado !
Penso:
— É só o centro da cidade.
Logo em seguida me corrijo:
— Não... é a minha vida.
Saio para um café.
Rua Larga. Café Capital.
Meu avô falava dos bondes. Hoje vejo o VLT passando pelo mesmo local.
Peço um café coado.
Um frio percorre minha espinha.
Depois de décadas tomando expresso, aquilo deveria estar horrível.
Procuro o açucareiro de boteco sobre o balcão.
Ele não está mais ali.
Os sachês de papel mostram que tudo ficou gourmetizado.
Faço um esforço para vencer minha resistência e me entregar ao momento.
Depois de anos, reencontro minhas raízes e coloco açúcar no café.
Que delícia.
Aproveito para entrar no Paladino e olhar lá dentro.
Esse eu já visitei outras vezes, mas agora era apenas uma espiada.
Vejo garçons conhecidos.
Entro novamente naquela atmosfera.
Uma lágrima escorre no canto do olho.
Que dias gloriosos eu tive.
E quantos ainda tenho.
A vida é feita de pequenos movimentos, gestos, sorrisos e emoções.
Quando sabemos valorizá-los, descobrimos que a felicidade quase sempre esteve ali, esperando por nós nos lugares mais simples.