Eu estava numa cama, com medo do mundo e sofrendo uma leve depressão em função do estresse. Precisava encontrar alguma coisa que me motivasse a continuar vivendo.
Tinha dois filhos pequenos, uma vida amorosa ruindo e uma vida profissional que fazia dezenas de pessoas dependerem de mim. E eu estava ali, parado, sem conseguir tomar decisões e muito menos reagir.
Até que, um dia, indo numa terapeuta em Copacabana, encontrei meu pai na rua há quilômetros das nossas casas, falei dos problemas e em determinado momento, ele me disse algo em pouquíssimas palavras mais ou menos assim:
“Meu filho, você precisa ter coragem e reagir.”
Só isso, mas marcou um longo período da minha vida.
Era algo que eu já sabia que precisava fazer, mas para o qual, naquele momento, não encontrava forças.
Decidi então colocar em prática um projeto: voltar a sonhar com alguma coisa. Ter uma meta para seguir.
Precisava de um objetivo que me mantivesse ocupado com planos, estudos e sonhos. Algo que não tivesse necessariamente sua recompensa apenas no final, mas que pudesse me fazer bem durante todo o percurso.
O Caminho de Santiago apareceu como esse projeto.
Naquele momento, Santiago não era apenas uma cidade distante na Espanha. Era um ponto no horizonte que poderia me ajudar a levantar.
E foi assim que, ainda naquela cama, comecei minha caminhada.
Tive a sensação de que o Caminho começava exatamente naquele instante. Fui tomado por uma vontade enorme de levantar, treinar, estudar, planejar, sonhar.
Era exatamente o apoio de que eu precisava.
O curioso é que os anos seguintes também acabaram se transformando numa espécie de caminhada. Vieram percalços, momentos em que precisei reagir e me levantar, situações em que faltou força de vontade e outras em que tive medo de seguir mesmo sabendo que precisava continuar.
Santiago continuava distante, diversas vezes o plano foi engavetado frente as prioridades da vida mas o Caminho, de alguma forma, já estava acontecendo.
Anos depois, em 2013, vivi no Rio de Janeiro uma experiência que voltou a despertar esse sentimento. Durante a Jornada Mundial da Juventude, vi milhões de pessoas ocupando as ruas com mochilas nas costas, caminhando, cantando, enfrentando cansaço, chuva, deslocamentos e uma cidade que para muitas delas era completamente desconhecida.
Independentemente da dimensão católica daquele encontro, algo naquela imagem me tocou.
Vi pessoas vindas de lugares diferentes compartilhando dificuldades, caminhando juntas e seguindo em direção a um objetivo comum.
Pela primeira vez consegui imaginar um pouco melhor o que poderia significar peregrinar.
Ainda não estava em Saint-Jean-Pied-de-Port, Pamplona, Burgos ou León.
Estava no Rio de Janeiro.
Mas, de alguma maneira, eu já estava no Caminho.
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