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Os Habsburgos: a família que moldou a Europa
É praticamente impossível compreender Viena sem conhecer, ainda que superficialmente, a história da Casa de Habsburgo. Durante cerca de sete séculos, essa dinastia governou boa parte da Europa e deixou marcas profundas na política, na cultura e na arquitetura do continente.
O Castelo de Habsburgo
Curiosamente, a família não nasceu na Áustria.
Sua origem está no Castelo de Habsburgo (Habichtsburg), construído por volta de 1020 no atual território da Suíça, no cantão de Argóvia. O castelo era uma fortificação relativamente modesta para os padrões das grandes fortalezas medievais, mas deu nome a uma das famílias mais influentes da história.
Hoje restam apenas partes da construção original, mas foi dali que começou a trajetória de uma dinastia que dominaria grande parte da Europa por quase setecentos anos.
Como chegaram à Áustria
A ascensão dos Habsburgos começou em 1273, quando Rodolfo I foi eleito Rei dos Romanos, título que antecedia o de Imperador do Sacro Império Romano-Germânico.
Poucos anos depois, em 1278, Rodolfo derrotou o rei Otacar II da Boêmia na Batalha de Marchfeld e assumiu o controle dos ducados da Áustria e da Estíria.
Esse foi o momento decisivo.
A partir daí, Viena tornou-se o centro do poder dos Habsburgos, posição que manteria durante séculos.
Casamentos em vez de guerras
Se existe uma característica que distingue os Habsburgos de outras dinastias europeias, ela é sua extraordinária habilidade política.
Enquanto outras casas reais expandiam seus territórios pela guerra, os Habsburgos preferiam fazê-lo por meio de casamentos estratégicos.
O lema atribuído à família resume perfeitamente essa estratégia:
"Que os outros façam guerras; tu, feliz Áustria, casa-te."
Graças a essa política matrimonial, a família passou a governar ou influenciar praticamente toda a Europa Central e Ocidental.
O problema do incesto
A mesma política que fortaleceu a dinastia acabou criando um de seus maiores problemas.
Para evitar a divisão das heranças e manter o poder concentrado na família, os Habsburgos passaram a realizar sucessivos casamentos entre parentes próximos — primos, tios e sobrinhas, além de outros graus de parentesco que hoje seriam impensáveis.
Durante séculos isso levou ao aumento da consanguinidade.
A consequência mais conhecida foi o chamado "queixo dos Habsburgos", um prognatismo mandibular bastante pronunciado que aparece em inúmeros retratos da família.
Mais grave que a característica física foram os problemas genéticos acumulados ao longo das gerações.
O exemplo mais famoso é Carlos II da Espanha, último rei Habsburgo espanhol. Extremamente debilitado, apresentava diversas limitações físicas e cognitivas e morreu sem deixar herdeiros, fato que desencadeou a Guerra da Sucessão Espanhola.
Hoje estudos genéticos apontam que a elevada consanguinidade teve papel importante no declínio da dinastia espanhola.
Diferentemente de outras monarquias, os Habsburgos ficaram famosos por uma estratégia pouco comum: expandir seus domínios mais por casamentos do que por guerras. O lema atribuído à família resume bem essa política:
"Que os outros façam guerras; tu, feliz Áustria, casa-te."
Por meio dessas alianças matrimoniais, passaram a controlar ou influenciar territórios que hoje correspondem à Áustria, Hungria, Boêmia, Espanha, Portugal, partes da Itália, Países Baixos e diversos territórios ultramarinos nas Américas e na Ásia.
Essa política teve reflexos diretos na história do Brasil. Foi dessa família que nasceu Maria Leopoldina da Áustria, primeira imperatriz do Brasil e figura fundamental no processo da Independência. Ao visitar Hofburg, o leitor estará caminhando pelos corredores onde Leopoldina viveu antes de embarcar para o Rio de Janeiro.
Os Habsburgos também foram protagonistas das grandes disputas religiosas da Europa. Defensores do catolicismo durante a Reforma Protestante, participaram diretamente da Guerra dos Trinta Anos e de diversos conflitos que redefiniram o mapa político europeu.
O auge do poder da dinastia ocorreu entre os séculos XVI e XVIII. Posteriormente, o crescimento dos nacionalismos, a ascensão de novas potências europeias e as derrotas militares enfraqueceram o império. Em 1867 surgiu o Império Austro-Húngaro, governado pelos Habsburgos até 1918, quando a derrota na Primeira Guerra Mundial levou à dissolução da monarquia.
Apesar do fim do império, o legado dos Habsburgos permanece vivo. Palácios como Hofburg e Schönbrunn, igrejas, museus, bibliotecas, jardins e boa parte da identidade cultural de Viena nasceram durante o período em que a família governou a Áustria.
Ao caminhar pela cidade, o visitante perceberá que Viena não é apenas a capital da Áustria. Durante séculos, ela foi o coração político e cultural de uma das famílias mais influentes da história da humanidade.
Os Habsburgos pelo mundo
Em diferentes momentos da história, membros da Casa de Habsburgo governaram diversos reinos europeus.
Áustria
Foi o principal núcleo da dinastia.
Entre os governantes mais importantes destacam-se:
Rodolfo I;
Maximiliano I;
Carlos VI;
Maria Teresa;
José II;
Francisco José I;
Carlos I (último imperador).
Espanha
A linha espanhola teve início com Carlos I da Espanha, conhecido também como Carlos V do Sacro Império.
Destacam-se ainda:
Felipe II;
Felipe III;
Felipe IV;
Carlos II.
Foi sob Felipe II que ocorreu a União Ibérica.
Portugal
Os Habsburgos nunca fundaram uma dinastia portuguesa própria, mas governaram Portugal durante a União Ibérica (1580–1640).
Os reis portugueses desse período foram:
Filipe I de Portugal (Felipe II da Espanha);
Filipe II de Portugal (Felipe III da Espanha);
Filipe III de Portugal (Felipe IV da Espanha).
Foi nesse período que o Brasil permaneceu sob domínio da mesma família que governava a Espanha.
Hungria
Após a Batalha de Mohács, em 1526, os Habsburgos assumiram o trono húngaro.
Entre os principais reis estão:
Fernando I;
Leopoldo I;
Maria Teresa;
Francisco José I.
Boêmia
A Boêmia também passou para os Habsburgos em 1526.
Alguns de seus soberanos mais importantes foram:
Fernando I;
Rodolfo II;
Fernando II;
Maria Teresa.
Praga tornou-se um dos principais centros políticos da dinastia durante parte desse período.
Países Baixos
Os Países Baixos chegaram aos Habsburgos por herança da Casa de Borgonha.
Governaram a região nomes como:
Carlos V;
Filipe II.
As tentativas de impor maior centralização e o catolicismo provocaram a Revolta dos Países Baixos, que culminou na independência das Províncias Unidas, origem da atual Holanda.
Um legado que permanece
O poder político dos Habsburgos terminou em 1918, com o fim da Primeira Guerra Mundial e a dissolução do Império Austro-Húngaro.
O legado, porém, continua vivo.
Quando caminhamos por Viena estamos, na verdade, caminhando por uma cidade construída para representar o poder dessa família.
Hofburg, Schönbrunn, Belvedere, a Biblioteca Nacional, a Escola Espanhola de Equitação, inúmeras igrejas, museus e praças nasceram durante seu governo.
Mais do que uma dinastia, os Habsburgos moldaram a identidade da Áustria e influenciaram profundamente a história da Europa — e, de maneira indireta, também a do Brasil por meio da imperatriz Leopoldina.
Conhecer os Habsburgos é, portanto, muito mais do que estudar uma família real. É compreender o contexto histórico que dá sentido à própria Viena.
| Datas importantes | |
|---|---|
| Fundação da Casa de Habsburgo | século XI |
| Início do domínio na Áustria | 1278 |
| Carlos V governa o maior império da dinastia | século XVI |
| União Ibérica (Portugal sob os Habsburgos espanhóis) | 1580–1640 |
| Maria Teresa governa | 1740–1780 |
| Leopoldina nasce em Viena | 1797 |
| Império Austro-Húngaro | 1867–1918 |
| Fim da monarquia | 1918 |
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