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sábado, 15 de agosto de 2026

Caminho de Santiago - Quando resolvi ir

Eu estava numa cama, com medo do mundo e sofrendo uma leve depressão em função do estresse. Precisava encontrar alguma coisa que me motivasse a continuar vivendo.

Tinha dois filhos pequenos, uma vida amorosa ruindo e uma vida profissional que fazia dezenas de pessoas dependerem de mim. E eu estava ali, parado, sem conseguir tomar decisões e muito menos reagir.

Até que, um dia, indo numa terapeuta em Copacabana, encontrei meu pai na rua há quilômetros das nossas casas, falei dos problemas e em determinado momento, ele me disse algo em pouquíssimas palavras mais ou menos assim:

“Meu filho, você precisa ter coragem e reagir.”

Só isso, mas marcou um longo período da minha vida.

Era algo que eu já sabia que precisava fazer, mas para o qual, naquele momento, não encontrava forças.

Decidi então colocar em prática um projeto: voltar a sonhar com alguma coisa. Ter uma meta para seguir.

Precisava de um objetivo que me mantivesse ocupado com planos, estudos e sonhos. Algo que não tivesse necessariamente sua recompensa apenas no final, mas que pudesse me fazer bem durante todo o percurso.

O Caminho de Santiago apareceu como esse projeto.

Naquele momento, Santiago não era apenas uma cidade distante na Espanha. Era um ponto no horizonte que poderia me ajudar a levantar.

E foi assim que, ainda naquela cama, comecei minha caminhada.

Tive a sensação de que o Caminho começava exatamente naquele instante. Fui tomado por uma vontade enorme de levantar, treinar, estudar, planejar, sonhar.

Era exatamente o apoio de que eu precisava.

O curioso é que os anos seguintes também acabaram se transformando numa espécie de caminhada. Vieram percalços, momentos em que precisei reagir e me levantar, situações em que faltou força de vontade e outras em que tive medo de seguir mesmo sabendo que precisava continuar.

Santiago continuava distante, diversas vezes o plano foi engavetado frente as prioridades da vida mas o Caminho, de alguma forma, já estava acontecendo.

Anos depois, em 2013, vivi no Rio de Janeiro uma experiência que voltou a despertar esse sentimento. Durante a Jornada Mundial da Juventude, vi milhões de pessoas ocupando as ruas com mochilas nas costas, caminhando, cantando, enfrentando cansaço, chuva, deslocamentos e uma cidade que para muitas delas era completamente desconhecida.

Independentemente da dimensão católica daquele encontro, algo naquela imagem me tocou.

Vi pessoas vindas de lugares diferentes compartilhando dificuldades, caminhando juntas e seguindo em direção a um objetivo comum.

Pela primeira vez consegui imaginar um pouco melhor o que poderia significar peregrinar.

Ainda não estava em Saint-Jean-Pied-de-Port, Pamplona, Burgos ou León.

Estava no Rio de Janeiro.

Mas, de alguma maneira, eu já estava no Caminho.



quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Barcelona

Madrid é uma cidade linda, não sei exatamente porque não me tocou com sua ostentação real, o clima Catalão me pareceu mais acolhedor, a ponto de apontar como uma cidade que eu moraria. O povo do mundo se encontra em Barcelona assim como em NY, Paris, Londres, não senti o mesmo em Madrid, isso posto ... não perca tempo e vá visitar logo La Sagrada Familia! (compre os bilhetes com hora marcada pela internet, isso é imprescindível, conheço várias pessoas que só viram a basílica do lado de fora e acharam o máximo kkkk! Não viram nada!! Ah teve uma que não entrou porque achou que a Catedral ainda estava em obra! Sim, ela ainda está em obras tinha previsão de ficar pronta em 2025 mas possivelmente vai atrasar depois da crise que assolou a Espanha, pouco importa entrar nela é uma ode a genialidade humana, vá ! Com certeza nunca viu e nunca verá nada igual!  Nem vou perder muito tempo escrevendo o que você vai sentir lá dentro, não leia ... sinta ! Aprecie !!! Reserve umas 4 horas para a Catedral para poder observar cada detalhe (são milhares). Aproveite o embalo para seguir conhecendo a alma de Gaudí, um passeio a pé pela Avenida Passeig de Gracia o levará para a Casa Batló, Le Pedrera e outras tantas no mesmo estilo, mas não perca muito tempo para conseguir visitar o belíssimo parque Guell.

A cidade é enorme e muitos são tentado a pegar aqueles ônibus turísticos, eu particularmente detesto, gosto de pé no chão, mapa na mão e ir  me sentindo um cidadão local nos metros cheios. Dessa forma recomendo fortemente bicicleta pelo centro histórico (catedral de Barcelona, bairro gótico, Raval, El Borne). Deixe para a noite para ir na Plaza Cataluña, no marcado La Boqueria e Las Ramblas caminhando até o mirador Colombo (ah está numa cidade grande cheia de batedores de carteira !). 

Tire um domingo a noite para um passeio imperdível no Palácio do Montjuic, o morro tem uma das fortalezas da cidade e a noite de domingo ocorre um festival de águas dançantes gratuito que é belíssimo e imperdível ... não estará num domingo a noite em Barcelona ?? Pois é ... mude sua programação de viagem e vá !

No dia seguinte caminhe um pouco pelo Montjuic, visitando sua fortaleza, o parque olímpico, o Parque da Cidadela (interessantíssimo com réplicas dos maiores monumentos da Espanha), o museu Miró, em seguida pegue um bonde que o levará ao porto e a Barceloneta, aí é hora usar a bicicleta pois o passeio é delicioso.

O Camp Nou é fantástico e merece a visita, assim como Santiago Bernabeu em Madrid (sem clubismo). Sempre gosto de ir nos museus de ciências ao estilo Citte De Las Sciences em Paris ou o Cosmocaixa em Barcelona, porém não fui, mas parece ser interessante. Optei por fazer um off Barcelona e acho que escolhi certo ....  Montserrat !! Certa vez Napoleão Bonaparte, numa de suas artimanhas decidiu atravessar os Pirineus com suas tropas, como era noite e todos sofriam com o frio intenso nas montanhas ele decidiu "pedir" abrigo num mosteiro beneditino que ali havia, no dia seguinte mandou matar todos os frades e queimou o mosteiro, parece que a estadia não foi tão boa (nem pra ele e nem para os frades). Além dessa história medonha o Mosteiro de Montserrat parece cenário de filme (na verdade é ... pois foi lá que filmaram o sensacional "O Nome da Rosa"). 

O bate e volta é completamente viável pois o mosteiro fica na cidade de Monistrol de Montserrat a 60Km de Barcelona, na estação Catalunha pegue um trem até Monistrol, bilhete tem que ser combinado com o teleférico que o levará ao mosteiro (existe a opção de subir de cremallera, o ideal é subir em um e descer pelo outro, ambos sensacionais!).  Quando se chega lá em cima a tendência é entrar no museu para ver Monet, Caravaggio, Picasso e a bela imagem do século XII de Nossa Senhora do Montserrat, a padroeira da Catalunha, acontece que o maciço de pedra que abriga o mosteiro é uma belíssima escultura da natureza. Então opte por fazer algumas trilhas rápidas (inclusive parte do Caminho Catalão para Santiago de Compostela), só em seguida entre no museu (sempre de olho no horário do retorno!!).

Zaragosa

O clima em boa parte da Espanha é continental com invernos rigorosos, e verões quentes, mas diferentemente do Brasil o clima lá é seco. É possível perceber bem isso no trem bala que liga Madrid a Barcelona e no meio do nada surge uma cidade exuberante, quente e nas margens do rio Ebro, por isso foi um ponto estratégico para a jornada romana em direção a Gália. aproveite para apreciar o rio e sua linda ponte de pedra (construída em ... 1140!!!!).






O nome se origina do governador romano Cesar Augusta, mais tarde, quando da invasão muçulmana na região  o local ficou conhecido como Zaragusta ... e daí Zaragoza! O povoado ocupado pelos Romanos se tornou um importante centro comercial bem no centro da Espanha, a cidade é grande e existem focos da era romana, medieval e árabe. A parada na viagem estrategicamente pode ser feita em um dia (apesar da cidade merecer mais do que isso!). Para o trajeto entre Madrid e Barcelona o ideal é pegar um Trem AVE em Madrid às 8:15, chegando 9:33 em Zaragoza e depois às 18:55 seguir viagem em direção ao desembarque as 20:48 Barcelona . Deixe o bilhete da viagem já esquematizado pela internet, porém não é difícil comprar as passagens na hora.





De cara vá ao grande teatro romano e nas Thermas Romanas, em seguida vá para uma jóia da arte moura, o palácio de La Aljafería que foi construído durante o período de ocupação muçulmana na região, se pensa que foi o ponto alto da cidade, siga em frente para La Seo (ignorando o que impressionar pelo caminho !!! Teremos uma hora melhor para ver tudo), La Seo é uma obra prima da arte mudéjar (muçulmanos convertidos aos catolicismo), a primeira catedral cristã da cidade, erguida no mesmo lugar do templo do foro romano de Caesaragusta e depois pela mesquita muçulmana, a mistura de estilos impressiona saindo da arquitetura romana até o neoclássico, passando pelo gótico, renascentista e barroco. 















Daí vá tomar um ar passeando pelo Casco Viejo, na parte antiga da cidade é possível ver as muralhas romanas, o Torreón de la Zuda, o mercado central (ideal para tomar um refresco e comer uma fruta), a plaza San Felipe e a Torre Magdalena, não deixe de ir no Museo de los Faroles y Rosario de Cristal que é bem interessante e no belo Museu de arte Camón Aznar, com muita coisa de Goya. Enfim vá a Plaza del Pilar, independente de sua religião, antes de entrar na basílica faça uma prece e de respeito aos séculos de história, ao legado de fé, você estará entrando no endereço mais querido dos zaragozanos numa das praças mais bonitas da Europa, um ponto importante para cristãos, um dos templos marianos mais importantes do mundo. Dizem que aqui, no ano 40, a Virgem Maria apareceu para o apóstolo Santiado e lhe entregou uma coluna de jaspe (o "pilar") para que sobre ele fosse erguido um templo, daí o nome da basílica!! O tal pilar pode ser visto no seu interior sustentando a imagem da Virgem. 

















Por fim ... vá entender porque eu que não sou católico entrei na Igreja de São Miguel Arcanjo e comecei a chorar lá dentro ?!? A capela é pequena mas linda ... tudo bem, meu filho se chama Miguel Arcanjo mas acho que vale a pena conferir, não vai levar mais que 5 minutos, a não ser que você resolva chorar também!

Bem ... agora vá para Barcelona !!

Ah ... durante a viagem procure ler sobre Agustina de Aragão afinal Zaragoza ainda estará impregnando sua alma e até agora eu nem falei no cerco de Zaragoza imposto por Napoleão ... pois é a cidade tem história!  

domingo, 2 de outubro de 2011

Porque escrever esse blog ?

Existem muitas pessoas que precisam de um guia para fazer o Caminho de Santiago de Compostela, para isso que comprem um guia com fotos e mapas. 

Meu intuito aqui é servir de referência e incentivo, não para fazer a caminhada, mas a se movimentar, a sair do lugar e buscar a sua própria energia, felicidade, ou o nome que queira dar. Se encontrar em si mesmo talvez seja a ideia que quero buscar aqui. Há quem diga que quando viajamos, estamos em busca de algo dentro de nós mesmos.

Escrevo para que eu possa depois ler e refletir sobre a minha caminhada. Nesse momento, abrir um blog é apenas um ponto do meu projeto (que nem deveria ser chamado de projeto pois não tem ainda datas de início e fim), projeto esse que eu nem sei se vou concluir. O fato é, que desde muito tempo, venho tentando me descobrir e fui atraído pelas histórias do Caminho de Santiago de Compostela, resolvi seguir esse caminho e deixar registrado todos os passos importantes para chegar ao fim com segurança, quero registrar todas as emoções que me fizeram decidir ir e obviamente não vou me furtar de colocar aqui algumas dicas de ordem prática que podem ajudar na logística da caminhada. 

Isso pode me ajudar até para usar de referência durante a viagem.

Quem sou eu?

Meu nome é Fabio Carneiro Teixeira Trino.


Nasci em 1974, sou carioca, pai, marido e analista de sistemas por formação. Mas, se existe algo que me define melhor do que minha profissão, talvez seja a curiosidade.

Sempre gostei de conhecer lugares, ouvir histórias e entender como as pessoas vivem, pensam e enxergam o mundo. Com o tempo descobri que viajar não era apenas mudar de lugar. Era uma forma de me conhecer melhor.

Foi dessa inquietação que nasceu o "Me Encontrando no Caminho".

Este não é um blog de turismo. Você não encontrará apenas dicas de viagem ou roteiros. Aqui, os lugares servem de cenário para algo maior: memórias, reflexões, encontros, histórias e perguntas que surgem pelo caminho.

Também gosto de escrever. Às vezes as palavras simplesmente aparecem, sem pedir licença. Escrever se tornou uma forma de registrar experiências, organizar pensamentos e preservar emoções que talvez se perdessem com o tempo.

Tenho um objetivo importante pela frente: percorrer o Caminho de Santiago de Compostela. Mas, para ser sincero, acredito que a jornada já começou muito antes do meu primeiro passo na caminhada. Ela acontece toda vez que um lugar me faz refletir sobre quem fui, quem sou e quem ainda posso me tornar.

Em teoria não existe razão específica para ir ou chegar, mas muitas pessoas conseguem refletir sobre suas vidas no caminho. Talvez os textos deste blog falem mais sobre mim do que esta apresentação. E talvez falem também um pouco sobre você.

Seja bem-vindo à caminhada e que os poucos registros lhe sejam úteis.