domingo, 2 de outubro de 2011

Caminho de Santiago - O início do início

Não sei qual foi a minha primeira referência ao assunto. Meu irmão fez um trecho há algum tempo. Em 2002, li um livro que despertou ainda mais meu interesse, mas a certeza de que eu realmente faria o Caminho veio durante uma crise de depressão, em 2009, quando decidi que, para viver, precisava ter objetivos palpáveis que me motivassem.

Foi dessa forma que comecei a viagem, pois acredito que decidir ir já é o começo da jornada.

Muito antes de começar a caminhada, é preciso todo um planejamento logístico, físico e espiritual para aproveitar tudo o que o Caminho pode me dar. Mesmo sendo perfeccionista, sei que meu planejamento será vulnerável e que muita coisa não acontecerá exatamente como imaginei.

Comecei minhas pesquisas a partir da criação deste blog, embora já tenha tido outras iniciativas antes: ler um pouco, procurar bibliografias, olhar mapas, visitar algumas cidades, rezar, emagrecer, analisar roupas e equipamentos adequados, aprimorar meu espanhol, fortalecer alguns músculos e aprender a cuidar melhor do meu corpo...

Nooossaaa, quanta coisa!

E olha que isso é só o início. Ainda tenho muito a fazer antes mesmo de colocar os pés na estrada.

Para fazer o Caminho é preciso preparar várias coisas e tenho certeza de que, no final, vou descobrir que muito do que fiz ou planejei estava errado, foi excessivo ou simplesmente desnecessário. Sei também que descobrirei coisas que deveria ter feito e não fiz.

Faz parte.

É preciso pensar em equipamentos, mapas, roupas e tantas outras coisas. Mas também é bom lembrar que essa é uma caminhada secular. Durante séculos, peregrinos percorreram essas estradas sem equipamentos tecnológicos, aplicativos, GPS ou roupas especialmente desenvolvidas para longas caminhadas. Seguiam outros peregrinos, procuravam abrigo, carregavam o necessário e enfrentavam as condições que encontravam pela frente. E que ainda hoje, existe muita humanidade e cooperação pelo caminho.

Eu, entretanto, não pretendo deixar minha vida por lá por falta de preparo.

A peregrinação exige do corpo e da mente. Acredito que grandes transformações possam acontecer durante a caminhada, mas também sei que não devemos romantizar suas dificuldades. O Caminho sempre apresentou riscos e desconfortos. Calor, frio, exaustão, acidentes, cães soltos, ladrões e outros perigos fazem parte de sua história. Hoje, felizmente, muitos desses riscos foram reduzidos pela tecnologia, pela medicina e pela infraestrutura disponível aos peregrinos. E desistir no meio não é uma decisão que nenhum peregrino quer tomar mas ter a humildade de aceitar as adversidades é tão nobre quanto completar o caminho. O que mais se vê no caminho para o Everest são cadáveres de pessoas altamente motivadas..

Ainda assim, existe algo na própria dificuldade de caminhar que me atrai.

Se estou me dispondo a percorrer uma rota histórica, quero experimentar pelo menos parte daquilo que a tornou tão especial. Quero sentir a distância entre uma cidade e outra. Quero perceber a mudança da paisagem. O ritmo ... Quero acordar sabendo que meus pés serão novamente o meu principal meio de transporte.

Não acredito que seja necessário sofrer para compreender o Caminho. Muito menos colocar a saúde em risco.

Mas também não quero simplesmente chegar a Santiago.

Quero caminhar até lá.

Porque escrever esse blog ?

Existem muitas pessoas que precisam de um guia para fazer o Caminho de Santiago de Compostela, para isso que comprem um guia com fotos e mapas. 

Meu intuito aqui é servir de referência e incentivo, não para fazer a caminhada, mas a se movimentar, a sair do lugar e buscar a sua própria energia, felicidade, ou o nome que queira dar. Se encontrar em si mesmo talvez seja a ideia que quero buscar aqui. Há quem diga que quando viajamos, estamos em busca de algo dentro de nós mesmos.

Escrevo para que eu possa depois ler e refletir sobre a minha caminhada. Nesse momento, abrir um blog é apenas um ponto do meu projeto (que nem deveria ser chamado de projeto pois não tem ainda datas de início e fim), projeto esse que eu nem sei se vou concluir. O fato é, que desde muito tempo, venho tentando me descobrir e fui atraído pelas histórias do Caminho de Santiago de Compostela, resolvi seguir esse caminho e deixar registrado todos os passos importantes para chegar ao fim com segurança, quero registrar todas as emoções que me fizeram decidir ir e obviamente não vou me furtar de colocar aqui algumas dicas de ordem prática que podem ajudar na logística da caminhada. 

Isso pode me ajudar até para usar de referência durante a viagem.

Quem sou eu?

Meu nome é Fabio Carneiro Teixeira Trino.


Nasci em 1974, sou carioca, pai, marido e analista de sistemas por formação. Mas, se existe algo que me define melhor do que minha profissão, talvez seja a curiosidade.

Sempre gostei de conhecer lugares, ouvir histórias e entender como as pessoas vivem, pensam e enxergam o mundo. Com o tempo descobri que viajar não era apenas mudar de lugar. Era uma forma de me conhecer melhor.

Foi dessa inquietação que nasceu o "Me Encontrando no Caminho".

Este não é um blog de turismo. Você não encontrará apenas dicas de viagem ou roteiros. Aqui, os lugares servem de cenário para algo maior: memórias, reflexões, encontros, histórias e perguntas que surgem pelo caminho.

Também gosto de escrever. Às vezes as palavras simplesmente aparecem, sem pedir licença. Escrever se tornou uma forma de registrar experiências, organizar pensamentos e preservar emoções que talvez se perdessem com o tempo.

Tenho um objetivo importante pela frente: percorrer o Caminho de Santiago de Compostela. Mas, para ser sincero, acredito que a jornada já começou muito antes do meu primeiro passo na caminhada. Ela acontece toda vez que um lugar me faz refletir sobre quem fui, quem sou e quem ainda posso me tornar.

Em teoria não existe razão específica para ir ou chegar, mas muitas pessoas conseguem refletir sobre suas vidas no caminho. Talvez os textos deste blog falem mais sobre mim do que esta apresentação. E talvez falem também um pouco sobre você.

Seja bem-vindo à caminhada e que os poucos registros lhe sejam úteis.