Viajar pela Hungria é perceber que sua história foi escrita não apenas pelos húngaros, mas também por povos, exércitos e impérios que repetidamente atravessaram suas fronteiras. Numa região situada numa espécie de corredor histórico entre mundos, que repetidamente sofreu invasões, ocupações e imposições externas.
Talvez isso tenha muito a ver com sua geografia.
Localizada na Bacia dos Cárpatos, no coração da Europa, a Hungria ocupa uma região de passagem entre o Ocidente e o Oriente europeu. Ao longo dos séculos, essa posição privilegiada para o comércio, os deslocamentos militares e a expansão territorial também cobrou um preço alto.
Romanos, magiares, mongóis, otomanos, Habsburgos... diferentes povos e impérios deixariam suas marcas nessa região, os Mongóis chegaram pelo leste. Otomanos avançaram pelos Bálcãs. Os Habsburgos disputaram o território. Séculos depois, a Alemanha nazista ocupou o país e, quando a Segunda Guerra Mundial terminou, tropas soviéticas permaneceram. Hoje são os turistas que ocupam as ruas de Budapeste.
Mas antes de falar de quem invadiu a Hungria, talvez seja preciso explicar como a Hungria chegou até ali. No final do século IX, tribos magiares, lideradas por Árpád, chegaram à Bacia dos Cárpatos e ali se estabeleceram. Entre aproximadamente 895 e 900, ocuparam progressivamente a região que se tornaria o núcleo do futuro Estado húngaro. É daí que começa a história da Hungria propriamente dita — e também de um povo cuja língua permanece bastante singular dentro da Europa.
Cerca de um século depois, essa sociedade ganhou uma nova dimensão com Estêvão I, primeiro rei da Hungria. Coroado na passagem do ano 1000 para 1001, Estêvão consolidou um reino cristão voltado para a Europa ocidental, estabelecendo as bases do Estado húngaro medieval. A Hungria que os mongóis encontrariam em 1241, portanto, já era um reino cristão europeu com mais de dois séculos de história.
Poucos lugares ajudam tanto a perceber que aquilo que hoje chamamos simplesmente de "Europa" foi, durante grande parte de sua história, um enorme tabuleiro de impérios.
Um dos primeiros grandes traumas ocorreu no século XIII. Em 1241, os exércitos mongóis invadiram o Reino da Hungria e derrotaram as forças do rei Béla IV na Batalha de Mohi. A devastação foi enorme e marcou profundamente o reino. A experiência ajudaria a modificar a própria paisagem defensiva húngara. Béla IV incentivou posteriormente a construção de fortificações de pedra e castelos capazes de oferecer maior resistência a novas invasões.
Quase três séculos depois, uma potência muito mais duradoura avançaria sobre o território húngaro: o Império Otomano. O momento decisivo ocorreu em 1526, na Batalha de Mohács, um capítulo da histporia que simboliza uma ruptura nacional.
A região central do antigo reino passou então ao domínio direto do Império Otomano. O oeste e o norte ficaram sob controle dos Habsburgos, enquanto a Transilvânia tornou-se um principado relativamente autônomo, mas submetido à influência otomana e isso permaneceu por cerca de 150 anos. Essa influência hoje é vista na cultura dos banhos termais
Os otomanos não foram os primeiros a descobrir as águas termais de Buda. Muitos séculos antes, quando a região fazia parte do Império Romano, os habitantes de Aquincum já utilizavam suas fontes e frequentavam banhos públicos. Durante a ocupação otomana, porém, essa antiga relação com as águas ganhou uma nova camada cultural. Os turcos construíram seus próprios banhos, alguns dos quais atravessaram os séculos e continuam funcionando.
Isso ajuda a entender por que entrar numa piscina termal em Budapeste não é simplesmente fazer um programa turístico.
É mergulhar — literalmente — numa camada da história da cidade.
Mesquitas, minaretes e outras construções otomanas desapareceram em grande parte depois da reconquista cristã, mas alguns vestígios sobreviveram em território húngaro, especialmente fora da capital. A expulsão dos otomanos não significou exatamente que os húngaros passaram a controlar plenamente seu destino. No final do século XVII, os Habsburgos consolidaram seu domínio sobre grande parte da Hungria.
Mudavam os governantes, mudavam as fronteiras e mudavam as alianças, mas a região continuava no centro das disputas das grandes potências europeias. Séculos depois, essa história ganharia capítulos muito mais sombrios.
A Alemanha nazista não simplesmente invadiu uma Hungria inimiga.
Durante a Segunda Guerra Mundial, a Hungria de Miklós Horthy tornou-se aliada das potências do Eixo, aderindo ao Pacto Tripartite em 1940. Entretanto, quando o governo húngaro começou a procurar uma maneira de abandonar a guerra, Hitler decidiu ocupar militarmente o país. Em 19 de março de 1944, tropas alemãs entraram na Hungria. A ocupação abriu uma das fases mais terríveis da história húngara.
Autoridades alemãs, contando com extensa colaboração de autoridades e forças húngaras, organizaram a perseguição e deportação em massa dos judeus. Em poucos meses, centenas de milhares foram deportados, principalmente para Auschwitz-Birkenau. O Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos estima que alemães e colaboradores húngaros assassinaram cerca de 500 mil judeus da Hungria durante esse período.
Em Budapeste, essa história está presente até hoje às margens do Danúbio.
Os Sapatos às Margens do Danúbio lembram judeus assassinados por integrantes do movimento fascista húngaro Cruz Flechada, que executou vítimas junto ao rio durante os últimos meses da guerra.
Então ocorreu uma das grandes ironias trágicas da história húngara. Quando os libertadores se tornam ocupantes. O Exército Vermelho avançou sobre a Hungria combatendo as forças alemãs e húngaras. Depois de um terrível cerco, Budapeste caiu em fevereiro de 1945; em abril, as forças soviéticas já controlavam completamente o território húngaro.
Para os sobreviventes judeus encontrados em Budapeste, aquilo significou libertação da perseguição nazista.Para a história política da Hungria, entretanto, começava outra etapa. A influência soviética cresceu, os comunistas assumiram progressivamente o controle do Estado e a Hungria tornou-se parte do bloco socialista liderado por Moscou.
Em 1956, quando uma revolta popular tentou promover profundas mudanças políticas e reduzir a submissão a Moscou, forças soviéticas intervieram militarmente e esmagaram a revolução.
A Hungria permaneceria sob um regime comunista alinhado à União Soviética até as transformações de 1989.
Talvez seja por isso que caminhar por Budapeste seja tão interessante. E uma cidade feita de camadas, em poucas horas podemos encontrar lembranças de reis medievais, fortificações contra mongóis, banhos herdados dos otomanos, palácios dos Habsburgos, marcas do nazismo, memoriais do Holocausto e monumentos relacionados ao período soviético, como a casa do terror.
Não são histórias independentes. São camadas.
A geografia colocou a Hungria no encontro entre mundos diferentes e, durante séculos, isso significou riqueza cultural, comércio e diversidade — mas também guerras, ocupações e disputas pela definição de quem mandaria naquele território.
Talvez compreender isso ajude também a compreender um pouco melhor os húngaros e sua imensa capacidade de fortalecer sua língua, seus costumes, sua cultura é essa resistência que os faz serem reticentes até hoje com os estrangeiros (inclusive os turistas).
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