Não sei qual foi a minha primeira referência ao assunto. Meu irmão fez um trecho há algum tempo. Em 2002, li um livro que despertou ainda mais meu interesse, mas a certeza de que eu realmente faria o Caminho veio durante uma crise de depressão, em 2009, quando decidi que, para viver, precisava ter objetivos palpáveis que me motivassem.
Foi dessa forma que comecei a viagem, pois acredito que decidir ir já é o começo da jornada.
Muito antes de começar a caminhada, é preciso todo um planejamento logístico, físico e espiritual para aproveitar tudo o que o Caminho pode me dar. Mesmo sendo perfeccionista, sei que meu planejamento será vulnerável e que muita coisa não acontecerá exatamente como imaginei.
Comecei minhas pesquisas a partir da criação deste blog, embora já tenha tido outras iniciativas antes: ler um pouco, procurar bibliografias, olhar mapas, visitar algumas cidades, rezar, emagrecer, analisar roupas e equipamentos adequados, aprimorar meu espanhol, fortalecer alguns músculos e aprender a cuidar melhor do meu corpo...
Nooossaaa, quanta coisa!
E olha que isso é só o início. Ainda tenho muito a fazer antes mesmo de colocar os pés na estrada.
Para fazer o Caminho é preciso preparar várias coisas e tenho certeza de que, no final, vou descobrir que muito do que fiz ou planejei estava errado, foi excessivo ou simplesmente desnecessário. Sei também que descobrirei coisas que deveria ter feito e não fiz.
Faz parte.
É preciso pensar em equipamentos, mapas, roupas e tantas outras coisas. Mas também é bom lembrar que essa é uma caminhada secular. Durante séculos, peregrinos percorreram essas estradas sem equipamentos tecnológicos, aplicativos, GPS ou roupas especialmente desenvolvidas para longas caminhadas. Seguiam outros peregrinos, procuravam abrigo, carregavam o necessário e enfrentavam as condições que encontravam pela frente. E que ainda hoje, existe muita humanidade e cooperação pelo caminho.
Eu, entretanto, não pretendo deixar minha vida por lá por falta de preparo.
A peregrinação exige do corpo e da mente. Acredito que grandes transformações possam acontecer durante a caminhada, mas também sei que não devemos romantizar suas dificuldades. O Caminho sempre apresentou riscos e desconfortos. Calor, frio, exaustão, acidentes, cães soltos, ladrões e outros perigos fazem parte de sua história. Hoje, felizmente, muitos desses riscos foram reduzidos pela tecnologia, pela medicina e pela infraestrutura disponível aos peregrinos. E desistir no meio não é uma decisão que nenhum peregrino quer tomar mas ter a humildade de aceitar as adversidades é tão nobre quanto completar o caminho. O que mais se vê no caminho para o Everest são cadáveres de pessoas altamente motivadas..
Ainda assim, existe algo na própria dificuldade de caminhar que me atrai.
Se estou me dispondo a percorrer uma rota histórica, quero experimentar pelo menos parte daquilo que a tornou tão especial. Quero sentir a distância entre uma cidade e outra. Quero perceber a mudança da paisagem. O ritmo ... Quero acordar sabendo que meus pés serão novamente o meu principal meio de transporte.
Não acredito que seja necessário sofrer para compreender o Caminho. Muito menos colocar a saúde em risco.
Mas também não quero simplesmente chegar a Santiago.
Quero caminhar até lá.
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