Mostrando postagens com marcador gastronomia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador gastronomia. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Caminhos da Memória

Centro do Rio de Janeiro — um almoço, um café e trinta anos de lembranças.

Ah, a nostalgia de um almoço no centro da cidade...

Quantos anos se passaram na minha memória nos poucos minutos em que desci a Rua Miguel Couto, como se estivesse entrando em um portal que me levava trinta anos atrás.

Que anos de ouro eu vivia em torno dos meus vinte anos: um bom emprego, um amor e uma vida inteira pela frente.

Hoje reencontro o passado e o centro da cidade. Não que tenha ficado esse tempo todo sem vir aqui ou sem remoer lembranças, mas hoje é diferente. Estou sozinho em meus pensamentos. Poucos problemas me importam. A luz de um dia de outono colore a cidade. São dias de efervescência durante uma Copa do Mundo. O corre-corre nas ruas demonstra o frisson dos jogos, como aquela efervescência do passado.

Atravesso a Avenida Rio Branco fora do sinal, em passos apressados que eu fazia quando tinha vinte anos. Como é bom repetir esses movimentos de liberdade.

Pensei meticulosamente em qual local explorar, em qual restaurante ir, mas, no final, simplesmente me deixei levar pelo instinto e segui rumo a um restaurante velho conhecido, embora hoje funcione em outro endereço.

Como eu queria estar entre os amigos do passado. Amigos que nem vivos estão mais. Mas que certamente estavam ali nos meus pensamentos, no meu respeito e na minha gratidão por terem me ensinado muitos desses caminhos.

O novo restaurante Bunda de Fora, do Esquimó, fica em frente ao memorável Beco dos Frangos Marítimos, que em breve vai fechar. Não porque exista uma placa anunciando isso, mas porque segue o mesmo destino de tantos outros lugares do centro: está com os dias contados e as mesas vazias.


De frente para ele está um restaurante que se reinventou, mas mantém a fórmula infalível da comida popular, saborosa e farta, onde ainda se pode comer como um rei, mesmo em um restaurante simples.

Pago a conta, levanto e as imagens começam a surgir.

Ando para o lado errado do meu caminho. Distraio-me em pensamentos, memórias e emoções.

Lembro do meu avô.

Dou um sorriso no canto da boca.

Com ele, muito do que sou começou.

Lembro do meu pai.

Lembro de amigos.

Que vontade de contar tudo isso para os meus filhos. De passar para eles um pouco dessa emoção.

Vou escrever quando chegar em casa, eis aqui o resultado, o tempo como protagonista, eu como expectador!

Mando mensagens para alguns amigos remanescentes, tentando reviver aqueles momentos. Eles vibram comigo..Convido uma sobrinha para almoçar comigo ali qualquer dia desses brinco com ela dizendo que se ela não conhece isso está vivendo errado !

Penso:

— É só o centro da cidade.

Logo em seguida me corrijo:

— Não... é a minha vida.

Saio para um café.

Rua Larga. Café Capital.


Meu avô falava dos bondes. Hoje vejo o VLT passando pelo mesmo local.

Peço um café coado.

Um frio percorre minha espinha.

Depois de décadas tomando expresso, aquilo deveria estar horrível.

Procuro o açucareiro de boteco sobre o balcão.

Ele não está mais ali.

Os sachês de papel mostram que tudo ficou gourmetizado.

Faço um esforço para vencer minha resistência e me entregar ao momento.

Depois de anos, reencontro minhas raízes e coloco açúcar no café.

Que delícia.

Aproveito para entrar no Paladino e olhar lá dentro.

Esse eu já visitei outras vezes, mas agora era apenas uma espiada.

Vejo garçons conhecidos.

Entro novamente naquela atmosfera.

Uma lágrima escorre no canto do olho.

Que dias gloriosos eu tive.

E quantos ainda tenho.

A vida é feita de pequenos movimentos, gestos, sorrisos e emoções.

Quando sabemos valorizá-los, descobrimos que a felicidade quase sempre esteve ali, esperando por nós nos lugares mais simples.

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Viajar é atravessar o tempo: a história que vive em cada esquina.

Uma das maiores forças que impulsionam o turismo é a diversidade cultural que existe no mundo. Cada língua, prato típico, costume ou religião carrega marcas de acontecimentos que moldaram aquele lugar — muito antes de nossa chegada.

E não estamos falando apenas de grandes eventos históricos, como visitar a Sala dos Espelhos onde foi assinado o Tratado de Versailles, o castelo da Defenestração de Praga ou o salão onde Mozart se apresentou pela primeira vez. A história também vive nos detalhes menos óbvios.

 A arquitetura local, por exemplo, é um reflexo direto do passado. Ela revela como os povos usaram os materiais disponíveis, se adaptaram ao clima e até encontraram formas criativas de pagar menos impostos aos governantes da época. Cada construção tem uma razão de ser — e uma história para contar.

A gastronomia também é um livro aberto. Sabores como o goulash húngaro, o Cury indiano ou o acarajé baiano são testemunhos vivos de tradições, trocas culturais e até conflitos. Já ouviu falar da “guerra do croissant”? Pois é, até os pães têm seus embates históricos.

Religiões e crenças deixam marcas profundas. É comum encontrar igrejas transformadas em mesquitas, templos que viraram museus, ou festivais que misturam rituais ancestrais com celebrações modernas. Cada transformação carrega camadas de significado.

Viajar é mais do que deslocar-se fisicamente — é atravessar o tempo.
É um convite à reflexão, ao respeito pelo passado e à inspiração para o futuro. É entender que cada esquina tem algo a ensinar, e que o mundo é um mosaico de histórias esperando para serem descobertas.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Mezzogiorno

Gosto de restaurantes onde sou recebido como membro da família, onde a comida é boa e farta, onde é possível ser recebido com o sorriso sincero pelo garçom, gerente, dono e cozinheiro. Se eu puxar da memória, foi assim, nas inúmeras vezes que fui ao Mezzo.  Lá, o sorriso é sincero e acolhedor e com essa atmosfera, o nosso próprio riso vem fácil, gerando então uma ótima oportunidade de viver e ser feliz.

Não lembro ao certo quantas vezes estive lá e nem desde quando, o certo é que seja a mais de 10 anos, e já estive nas mais diversas situações, em almoço de negócios, trabalhando com o laptop do lado, pensando na vida, sofrendo com a vida, celebrando com amigos do trabalho, comemorando aniversários, flanando pelo incrível centro histórico do Rio, com namoradas e sempre buscando novas, e boas experiências. Experiências essas, que são dignas de compartilhar, sempre que tenho um novo amigo, um novo amor, um novo colega de trabalho, "estreio" o Mezzogiorno. Lá o riso vem fácil, a conversa flui porque não estamos preocupados se a comida está boa ou se a conta estará errada, lá a descontração é tudo podemos viver e não se preocupar com o resto. É claro que já vi falhas no atendimento, mas a atmosfera acolhedora do pessoal da casa, nos dá a sensação de que estamos em casa, ou na casa de um parente.

O Mezzogiorno fica no segundo andar de um belo sobrado na Rua do Mercado, 51. Um autentico quadro negro na porta indica a entrada (escondida), já temi que o prédio desabasse, mas se durante esse tempo todo não ocorreu, não creio que esse seja o meu destino, até porque, ao longo desse tempo de cliente algumas obras melhoraram o local.... Uma austera escada de madeira, dá acesso ao segundo andar sempre com um ar condicionando amenizando o clima do centro do Rio, das janelas, a bela visão do Centro Cultural dos Correios, toalhas bem postadas, numa sacadinha cenográfica no fundo e uma bela visão da cozinha compõe o cenário. Treliças dividem alguns espaços, tornando-o uma pouco mais aconchegante, acolhedor e porque não dizer ... discreto! Ambiente propício até para um encontro amoroso extra oficial.....

Encravado no "centro cultural histórico do Rio" foi ali perto que se instalou a Família Real, que o Porto agitou a cidade, que a sede religiosa da cidade ditava os costumes, que o Senado se rendia aos dissabores da política. A boa opção de passeio ao Mezzo inclui sempre uma visita ao Centro Cultural dos Correios, do Banco do Brasil ou à Casa França Brasil. Almoçar, flanando pela cidade pode ser a melhor forma de se aproveitar o almoço. O restaurante nos dá a opção de viver bons momentos, e se puder dar uma esticadinha neles ....

O preço e a comida são pontos fundamentais ... você vai gastar um pouco acima de um almoço normal, mas não será um almoço normal! É um lugar para se frequentar em ocasiões especiais, considere gastar (a preços de janeiro de 2014), uns R$ 60,00 entre entrada, prato de massa, sobremesa e café. A massa é o carro chefe da casa, e apesar da culinária italiana, nos trouxer um extenso leque de opções, se concentre na massa pois as chances de sucesso são maiores. Dizem que o couvert é opcional, lá deveria ser instituído como obrigatório pois a compota de berinjela, os pães com calabresa, a sardela e até o bom e velho pão com manteiga são sensacionais. O nhoque de aipim é tudo de bom e os molhos ao pesto, ao sugo e alla calabresa são formidáveis. Certa vez comi um honesto spaghetti alla carbonara com um amigo que, constrangido pediu um pouco de molho ao pesto com nozes para molhar o pão!

 Como é um lugar para se sentir bem e comer bem, não se prenda em dietas ou outros limitadores do prazer. Coma uma sobremesa, ou reserve espaço para o capuccino, biscoitos e creme vão compor a bebida que nos faz descer dos céus depois de uma bela refeição.





quarta-feira, 19 de junho de 2013

Lugares que me habitam - Pajelança

Encontro Flávio Máximo pelos corredores do trabalho, e depois de tanto tempo, ao longe são pronunciadas palavras de carinho que só os amigos compreendem (fala FDP!), por fim escuto um "partiu pajelança!", soou diferente de um "partiu BS" do Vanderlei, ou uma convocação para o Russão de Anderson Rigas, nada contra um banho de sangue ou um almoço a caminhada, mas aquelas palavras nos remetiam a um passado, um passado que voltava agora em minha cabeça, um filme que tinha um véu obscurecendo-o parece límpido. A princípio abri um sorriso, mas aos poucos fui me dando conta dos vários compromissos das vida que fazem tomar outros rumos nos almoços, é não dava, tinha outros planos para o dia de hoje. 
O Pajé é um restaurante de comida honesta e popular que eu tanto gosto no centro do Rio, as memórias desse lugar, por vezes me levam as lágrimas, por lembrar de um passado tão glorioso de tempos e pessoas que passaram por nossa vida e que esquentaram a barriga no balcão do Pajé. A hora do almoço chega eu eu preso a um conference call (como no passado, como sempre !). Tudo termina e uma coincidência me leva a consertar meu relógio lá pelos lados da Presidente Vargas, altura do Banco Central. Ali revejo o meu passado, o lugar onde assinei o contrato de compra do primeiro imóvel, o primeiro emprego, anos virando noites nos suportes. Lembro de Eugênio Ronaldo Alves seu sorriso, andando apressado em direção ao Pajé e colocando a camisa (e a barriga!) pra dentro da calça, pequenas lágrimas começam a rolar mas logo viram um sorriso, depois de 10 anos, o Pajé continua sendo um restaurante onde você é recebido com abraços, sorrisos, um lugar onde o seu prato preferido é de conhecimento do garçom e lhe é oferecido sem que esteja no cardápio, é onde sou tratado como um rei, ou simplesmente como um amigo. 
Chego, passo direto pelo "bunda de fora" do térreo, o dia é de rasgar planos, reencontrar o passado, é um dia especial, como tantos outros naquele salão do segundo andar, o cheiro de mofo sumiu, a foto do Pajé também, no lugar pinturas e cartazes de filme antigos. As pessoas na mesa ao lado fazem HUMMM ao comer, por diversas vezes escuto "delicioso" no salão. Sim, o tempo não levou tudo... ainda não! O garçom larga tudo para me servir, sorriso estampado no rosto, perguntou sobre a vida e a namorada (levei algumas lá !), reclamei pelo Filet a Forrestier e ele retrucou que fazia pra mim. Ataquei de picanha suína com farofa brasileira, essa não chega nem aos pés da farofa do mítico Choperia do Papai (outra história, outro texto..), contudo nada a reclamar, nem a falta do creme para acompanhar a banana flambada (sempre foi o grand finale para as namoradas) e o café. A tempos a leiteria que fornecia tal creme fechou suas portas. Preço para um almoço pra um que serve dois ... R$ 40,00
Não sei se foi efeito da bebida que flambou as bananas, mas depois de um almoço nesse estilo e cheio de sabores especiais, até vi poesia no bailar dos papéis que caiam das janelas da Avenida Presidente Vargas, era como se Eugênio Ronaldo Alves saísse das nuvens onde mora, para brincar com o mundo e com o passado.

Restaurante Pajé - Rua Teófilo Otoni, 190